Verstappen vestiu Mercedes em Nürburgring e a Red Bull olhou pra outro lado
Max Verstappen passou 21 horas liderando uma corrida de 24h num Mercedes-AMG GT3, na Alemanha, a 7 dias do GP do Canadá. A Red Bull não impediu, não criticou e não comentou. Para Carla Ribeiro, é o sinal mais claro de que o tetracampeão já saiu da equipe — só falta a Red Bull aceitar.

Max Verstappen passou 21 horas liderando uma corrida de 24h no domingo. Detalhe pequeno: ele estava pilotando um Mercedes-AMG GT3, na Alemanha, a 5 dias do treino livre do GP do Canadá. E a Red Bull, dona do contrato dele, simplesmente olhou pra outro lado.
Não houve nota oficial, não houve "felicidades, Max", não houve "estamos torcendo". Houve silêncio. E o silêncio da Red Bull, em 2026, ficou tão eloquente quanto qualquer comunicado: a equipe que dependia exclusivamente do tetracampeão para existir no grid já entendeu que ele não está mais ali, mesmo quando aparece no paddock.
Vinte e uma horas de Mercedes, três horas até a glória
Vamos aos fatos. Verstappen disputou pela primeira vez na carreira o Nürburgring 24 horas. Correu pela Emil Frey Racing em conjunto com a equipe Landgraf, num Mercedes-AMG GT3 Evo número 3 pintado nas cores da Red Bull — sim, ironia patrocinada por bebida energética — ao lado de Lucas Auer, Jules Gounon e Dani Juncadella. Largou em P10, fez um primeiro stint que a imprensa europeia chamou de "masterclass" e levou o carro à liderança em pouco mais de uma hora.
Daí em diante foi exatamente o que se espera de Verstappen: limpo, rápido, frio. O carro #3 emplacou stints noturnos colando o tempo de Mercedes-AMG #80 e abriu pequenas vantagens em cada turno do tetracampeão. Até as 3 horas finais da corrida, quando o eixo de transmissão cedeu enquanto liderava. O carro #80 do Ravenol — também Mercedes — herdou a ponta e levou a primeira vitória da marca em Nürburgring 24h em uma década.
Verstappen saiu de capacete na mão, sem reclamar do carro, sem reclamar do regulamento, sem reclamar do time. Apenas: "estarei de volta". E aí está a primeira camada da provocação: faz tempo que ninguém ouve Verstappen falar assim de qualquer carro da Red Bull.
A Red Bull é só o lugar onde Max trabalha enquanto não muda
Voltemos pra F1. O RB22 é, por consenso, o pior carro da Red Bull em 15 anos: Pierre Wache prometeu "um segundo a mais que o irmão"; entregou um chassi empatado com a Alpine no peso, atrás da Williams no ritmo de corrida e melhor que a Haas só nas retas curtas. Em março, Verstappen chamou o pacote de "horror show" e Carla Ribeiro escreveu aqui que a culpa era da Red Bull, não do regulamento. Dois meses depois, a coluna envelheceu bem: o regulamento segue de pé, a Mercedes monopolizou o ano e o RB22 piorou.
Mekies, o substituto de Horner, prometeu em Miami que o pacote de upgrades valia 0,6 segundo. Verstappen terminou em P5, falou em "huge step" e, três dias depois, admitiu publicamente que está pensando em pausar a carreira. É o quadrante absurdo onde a Red Bull mora em 2026: o piloto não está vencendo, não está se divertindo e ainda corre Mercedes-AMG nos fins de semana de folga.
Não há mais discussão sobre quem é o problema. A pergunta passou a ser: quanto tempo de campanha de campeonato a Red Bull aguenta sem o protagonismo do número 1? Resposta provável, lendo os 26 pontos do Verstappen contra os 100 do Antonelli: o protagonismo já acabou. A equipe está terminando 2026 mentalmente em maio.
Le Mans em 2028 já é um post-it na geladeira do Max
Existe um motivo simples para a Mercedes-AMG ter chamado Verstappen pra Nordschleife: ele aceitou. E aceitou porque, na semana retrasada, a Ford confirmou negociações para encaixá-lo no Hypercar do WEC em 2028. Mark Rushbrook não fugiu da pergunta: existem conversas há três anos, o programa estreia em 2027 e a janela mais realista é 2028, quando o contrato com a Red Bull se encerra.
Some os pontos. O cara tem time próprio (Verstappen.com Racing), correu Spa-Francorchamps em GT3 ano passado, correu Nürburgring 24h este mês, conversa com a Ford pra Le Mans em 2028 e admite publicamente que pensa em parar. Isso não é mais hobby de feriado. É a infraestrutura de uma transição.
A Red Bull podia, há dois anos, dizer "Max está aqui pra construir uma dinastia". Hoje, o melhor argumento da Red Bull para manter Verstappen é financeiro — e ele já não precisa do dinheiro. O que ele queria, que era ganhar Mundiais com folga e tempo de família entre as corridas, a Mercedes está entregando pro Antonelli.
Em Montreal, Verstappen vai contar GPs até o fim do ano
A Red Bull não está perdendo Verstappen em uma negociação. Está perdendo Verstappen em silêncio, fim de semana após fim de semana, num plano que Max provavelmente nem precisou tornar consciente. Cada participação fora da F1 é uma resposta automática à pergunta "o que sobra depois de Milton Keynes?".
O GP do Canadá é o primeiro Sprint Weekend da história de Montreal. Pista travada, escorregadia, com o muro dos campeões esperando qualquer escorregão. É o tipo de fim de semana que sempre belisca o Verstappen vencedor: cinco vitórias em Montreal, último triunfo em 2024. Em 2026, com um carro que ele mesmo chama de horror show, esperar mais um pódio é fé religiosa.
Minha aposta: Verstappen briga pelo P4 no domingo se tudo der certo, termina em P7 se for um sábado normal. E, na sexta-feira que antecede o GP da Espanha, vai aparecer foto de Max num kart, ou num Hypercar de teste em Sebring, ou em Goodwood, ou na pista de testes da Ford. Porque a Red Bull pode tentar manter Verstappen em Milton Keynes na semana de corrida. Não consegue mais mantê-lo lá nos sete dias entre uma corrida e outra.
A Red Bull olhou pra outro lado em Nürburgring porque já não tem como olhar o seu piloto. O Max está exatamente onde ele decidiu estar: do lado de fora do projeto.
Perguntas frequentes
Max Verstappen correu o Nürburgring 24h de 2026?
Sim. Verstappen disputou a corrida de endurance de 17 a 18 de maio de 2026 pilotando o Mercedes-AMG GT3 Evo número 3 da Emil Frey Racing, ao lado de Lucas Auer, Jules Gounon e Dani Juncadella. O time liderou por 21 horas antes de abandonar com falha no eixo de transmissão a 3 horas do fim.
Quem ganhou o Nürburgring 24 horas de 2026?
O Mercedes-AMG Team Ravenol no carro #80, com Maro Engel, Adam Christodoulou e Manuel Metzger. Foi a primeira vitória da Mercedes em Nürburgring 24h em uma década e a marca emplacou um 1-2 no pódio.
Quantos pontos Max Verstappen tem no Mundial de Pilotos de 2026?
26 pontos. Verstappen é sétimo, a 74 pontos do líder Kimi Antonelli (Mercedes), depois de terminar em P5 no GP de Miami. A Red Bull é apenas quinta no campeonato de construtores, atrás inclusive da Alpine.
A Red Bull pode proibir Verstappen de correr em outras categorias?
O contrato de Verstappen com a Red Bull tem cláusula de exceção para participações pontuais em corridas de endurance — diferentemente da maioria dos pilotos do grid. A equipe assinou esse termo e historicamente não interfere, mesmo quando o piloto pilota carros de marcas rivais.
Quando é o próximo GP de Fórmula 1 depois do Nürburgring 24h?
O GP do Canadá, em Montreal, de 22 a 24 de maio de 2026 — primeiro Sprint Weekend da história do Circuito Gilles Villeneuve. Verstappen sai da Alemanha com cinco dias até a sessão de treinos livres.