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Wache na berlinda: Red Bull discute abandonar o RB22 e o futuro do diretor técnico

Pierre Wache prometeu que o RB22 seria 'um segundo mais rápido' que o carro da equipe irmã. Não foi. Com Craig Skinner já fora e o orçamento insuficiente para salvar 2026 sem comprometer 2027, a liderança técnica da Red Bull vive seu momento mais crítico.

PorRicardo Mendes
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Wache na berlinda: Red Bull discute abandonar o RB22 e o futuro do diretor técnico
Foto: GPFans / Reprodução — Pierre Wache, diretor técnico da Red Bull, sob pressão crescente após o desastroso início de 2026

A Red Bull tem poucos segredos neste momento. Os números que importam são públicos: quarto lugar no campeonato de construtores, atrás da Mercedes, Ferrari, McLaren — e da Alpine. A pergunta que circula nos bastidores de Milton Keynes, porém, não é sobre o campeonato de 2026. É sobre quem vai carregá-lo daqui para frente.

Depois da confirmação de que Gianpiero Lambiase deixará a Red Bull para a McLaren em 2028, o nome que aparece nas conversas privadas do paddock é outro: Pierre Wache. O diretor técnico francês, supervisor do design do RB22, enfrenta pressão crescente de dentro e de fora. Segundo fontes ouvidas pelo GPFans e confirmadas pelo GPBlog, sua posição já não é considerada intocável em Milton Keynes.

O que Wache prometeu — e o que entregou

Em dezembro passado, Wache deu uma garantia incomum para um engenheiro de F1: o RB22 seria "um segundo mais rápido" que o carro da Racing Bulls. A declaração fazia sentido como métrica interna — as duas equipes usam o mesmo propulsor Ford, então qualquer diferença de ritmo seria atribuída exclusivamente ao chassi. Um segundo era a promessa.

A realidade das três primeiras corridas foi diferente. O RB22 não apenas não atingiu essa margem — ficou atrás da Alpine na classificação de construtores, resultado que seria impensável há um ano. Max Verstappen descreveu o carro como incapaz de girar na apex, com sobreesterço imprevisível na entrada de curva. Isack Hadjar foi mais direto: o motor é "bom"; o chassi é "terrível".

A saída de Craig Skinner — designer-chefe durante 20 anos na equipe, desligado às vésperas da temporada — ganhou outro significado à luz dos resultados. À época, a Red Bull enquadrou a saída como decisão voluntária. Fontes próximas à equipe descrevem desentendimentos reiterados entre Skinner e Wache sobre a direção técnica do RB22 como fator determinante para o rompimento.

Abandonar o RB22 ou sacrificar o orçamento de 2027?

O problema técnico da Red Bull tem uma dimensão financeira que complica qualquer saída. A equipe não alocou margem suficiente no teto de custo para corrigir todas as deficiências do RB22 sem impactar o desenvolvimento do carro de 2027.

A escolha que o chefe de equipe Laurent Mekies enfrenta é direta: investir pesado no RB22 agora significa retirar recursos do projeto da próxima temporada. Segurar o dinheiro significa aceitar um 2026 comprometido — e, com ele, as implicações sobre o contrato de Verstappen, que contém cláusula de saída caso esteja terceiro ou abaixo na classificação de pilotos na pausa de verão europeu.

Internamente, a situação chegou ao ponto em que, segundo o jornalista Ralf Bach, há pessoas dentro da equipe defendendo o descarte integral do RB22. A lógica: se o problema é estrutural demais para ser resolvido por atualizações incrementais, cada euro gasto tentando salvar o projeto atual é dinheiro retirado de um 2027 que pode começar competitivo. Mekies descartou publicamente essa hipótese. Afirmou que a pausa de abril será usada para uma melhoria expressiva e prometeu um "relançamento de temporada" em Miami.

Miami como julgamento para Wache

O paddock sabe o que está em jogo em Miami. Não apenas pontos — a posição de Wache. Se o pacote de atualizações previsto para o GP de 1 a 3 de maio não produzir resultados visíveis, o ambiente interno ficará ainda mais desfavorável para o diretor técnico.

A comparação que Milton Keynes evita fazer em voz alta é a seguinte: a Ferrari chega a Miami com um pacote triplo validado em teste privado em Monza, a McLaren preparou o que a Sky F1 chama de "a maior atualização da temporada", e a Mercedes chegará ao circuito como líder de construtores com margens consolidadas. Para que qualquer argumento em defesa do status quo técnico se sustente internamente, a Red Bull precisará superar pelo menos dois desses adversários na Flórida.

Wache conhece as apostas. O paddock também. E em Miami, a equipe de quatro títulos mundiais precisará decidir, de uma vez, se está consertando 2026 — ou já pensando em 2027.


Fontes: GPFans, GPBlog, F1 Oversteer, Planet F1, RacingNews365