Alpine fez a jogada mais esperta de 2026 — e ninguem viu
Enquanto a F1 inteira chora o bilhão que a Aston Martin enterrou na Honda, a Alpine demitiu o próprio motor, pegou um Mercedes de cliente e saiu da lanterna de 2025 para o quinto lugar. Carla Ribeiro explica por que essa é a jogada mais inteligente do ano — e o único perigo que ainda assombra Enstone.

Enquanto a Fórmula 1 inteira discute o trem-bala da Mercedes e chora o bilhão que a Aston Martin enterrou na Honda, a jogada mais inteligente de 2026 passou batida no fundo do grid — e ela tem sotaque francês. A Alpine terminou a temporada passada em último, demitiu o próprio motor, pegou um Mercedes de cliente e subiu para o quinto lugar do Mundial de Construtores. Ninguém parou para aplaudir. Eu paro.
Não é torcida romântica por azarão. É reconhecimento de competência. Em um ano em que metade do grid se afogou tentando domar o regulamento novo, a equipe de Enstone fez o dever de casa mais chato e mais difícil que existe na F1: olhou para o próprio retrato de fracasso e teve coragem de mudar o que importava.
A Alpine fez o oposto da Aston Martin — e deu certo
Coloque os dois projetos lado a lado e a aula fica óbvia. A Aston Martin gastou uma fortuna para construir uma superequipe no papel: motor Honda de fábrica, Adrian Newey no comando técnico, um bicampeão mundial ao volante. Resultado, cinco etapas depois? Zero ponto e a lanterna do campeonato dividida com a estreante Cadillac, como esta coluna já tinha cravado quando expôs o blefe da era Newey-Honda.
A Alpine fez o inverso de tudo isso. Em vez de bancar um motor de marca própria por orgulho, Briatore enterrou a Renault de Viry-Châtillon, que abastecia Enstone desde sempre, e foi atrás de um Mercedes de cliente — a mesma unidade que sobrou quando a Aston casou com a Honda. Trocar o motor da própria casa por um de prateleira é admitir publicamente que você não é bom o suficiente. É humilhante. E foi a decisão mais lúcida que uma equipe de F1 tomou nos últimos cinco anos.
Os números não deixam mentir. O managing director Steve Nielsen resumiu sem rodeios ao site da Formula 1: "fizemos um carro muito melhor que o do ano passado — aliás, eu sei que fizemos", e a maior fatia do ganho veio justamente da unidade de potência. Quem terminou 2025 em décimo e último agora soma 23 pontos no bloco de abertura, ocupa o quinto lugar e viu Franco Colapinto — o argentino que muita gente queria fora do carro — entregar um P7 em Miami que valeu mais que muita corrida de equipe grande. Enquanto a Aston paga para aprender, a Alpine cobra os dividendos de ter escolhido o caminho certo.
Roubar o cérebro da FIA não é desespero, é estratégia
A parte que mais me convenceu não foi o resultado de domingo — foi a contratação de uma terça-feira qualquer. A Alpine foi à FIA e levou Jason Somerville, o chefe de aerodinâmica que ajudou a escrever o regulamento de 2026, para um cargo de Deputy Technical Director criado sob medida. Pensa na ousadia: a equipe contratou o sujeito que conhece a redação técnica das regras por dentro, que sabe exatamente onde estão os limites e onde sobra margem de interpretação nas asas ativas e na geração de carga.
Isso não é movimento de quem está se afogando e agarra qualquer tábua. É movimento de quem cheirou sangue. Briatore repetiu em todas as entrevistas pós-Miami que não quer ser o melhor carro do meio do grid em 2026 — quer estar brigando por Q3 com Mercedes e Aston em 2027. Para um time que há um ano era piada de paddock, falar assim e ainda contratar o arquiteto das regras para bancar o discurso é a definição de ambição com endereço. O efeito do Somerville no carro deste ano é zero; ele foi comprado para o futuro. Planejar o futuro quando o presente já melhorou é luxo que time desesperado não tem.
O contra-argumento existe — e ele se chama Enstone
Agora a parte em que eu mesma jogo água no meu chopp, porque opinião honesta também aponta o próprio calcanhar. Sim, quinto lugar ainda é meio de grid. A Mercedes de Antonelli, com 131 pontos e quatro vitórias seguidas, está em outro planeta, e a distância da Alpine para a ponta é de outra categoria. Comemorar P5 pode soar como elogiar aluno que tirou cinco depois de anos tirando zero. Justo.
Só que o teto de hoje não é o problema da Alpine. O problema da Alpine se chama Alpine. Enstone é a fábrica que transformou em esporte nacional a arte de queimar talento técnico de primeira: Pat Fry, Paul Permane, Marcin Budkowski, Bruno Famin — uma fila de gente competente que entrou prometendo revolução e saiu pela porta dos fundos. Montar uma boa estrutura essa equipe já provou que sabe. Não destruí-la seis meses depois é a prova que ela nunca passou. Somerville, David Sanchez e o pacote de motor Mercedes só vão valer alguma coisa se a política interna de Enstone parar de devorar as próprias decisões boas.
A aposta
Eu não vou fingir que a Alpine vai ganhar corrida em 2026, porque não vai. Mas premiar quem acerta a estratégia estrutural num ano de regulamento totalmente novo é obrigação de quem entende de F1, e o mérito aqui é gritante. A Aston comprou estrelas e colheu vexame. A Alpine comprou bom senso e colheu pontos.
Minha aposta: até o fim de 2026, a Alpine termina à frente da Aston Martin no campeonato — e a única coisa capaz de estragar isso não vai estar na pista. Vai estar nos corredores de Enstone, onde a pergunta nunca foi "sabemos construir?", e sim "vamos conseguir não sabotar?".
Perguntas frequentes
Em que posição a Alpine está no Mundial de Construtores de 2026?
Em quinto lugar, com 23 pontos somados no bloco de abertura da temporada — o melhor início da equipe de Enstone desde 2018. Em 2025, a Alpine havia terminado em último, na décima e última posição.
A Alpine trocou de motor em 2026?
Sim. A equipe abandonou o motor Renault da própria casa e passou a usar unidades de potência Mercedes de cliente, em um acordo fechado por Flavio Briatore que vai até 2030. Foi a Mercedes liberada quando a Aston Martin fechou com a Honda.
Quem são os pilotos da Alpine em 2026?
Pierre Gasly e Franco Colapinto. O argentino, que não pontuou em 2025, garantiu a vaga com a evolução no fim do ano passado e já marcou pontos em 2026, incluindo um P7 em Miami.
Quem é Jason Somerville e por que a Alpine o contratou?
Engenheiro britânico que foi chefe de aerodinâmica da FIA até maio de 2026 e ajudou a desenhar o regulamento atual. A Alpine criou para ele o cargo de Deputy Technical Director, mirando o carro de 2027.
Por que a Alpine está indo melhor que a Aston Martin em 2026?
Porque acertou nas escolhas estruturais: trocou um motor próprio fraco por um Mercedes competitivo e montou um carro consistente. A Aston, com motor Honda de fábrica e Adrian Newey, ainda não pontuou e divide a lanterna com a Cadillac.