Alpine recruta da FIA o aero que desenhou o regulamento 2026
Jason Somerville, chefe de aerodinâmica da FIA até abril e um dos pais técnicos do regulamento 2026, virou Deputy Technical Director da Alpine antes do GP do Canadá. O cargo foi criado para ele, e ele responde direto a David Sanchez.

A Alpine fechou nesta semana o lance técnico mais simbólico do ciclo de 2026: contratou Jason Somerville, Chefe de Aerodinâmica da FIA até o início de maio, para ocupar o recém-criado cargo de Deputy Technical Director. O britânico é um dos engenheiros que ajudaram a desenhar o próprio regulamento que está em vigor agora, e foi confirmado pela equipe poucos dias antes do GP do Canadá, com efeito imediato a partir de 15 de maio.
Não é uma chegada de bastidor: o time de Enstone criou uma posição nova só para ele, encaixada entre o Executive Technical Director, David Sanchez, e os chefes de departamento. O timing combina com o melhor momento da equipe desde 2018 — 23 pontos em quatro rodadas, quinto lugar no Mundial de Construtores e Franco Colapinto entregando P7 em Miami no primeiro bloco do calendário americano.
Da sala de regras da FIA para a prancheta do A527
Somerville passou os últimos quatro anos como Head of Aerodynamics da FIA, no time técnico de Nikolas Tombazis. Foi nesse período que a federação desenhou e fechou a redação aerodinâmica do regulamento 2026 — pacote de carros mais leves, asas ativas (DRS e DRS dianteiro) e geração de carga reduzida nas retas. Antes disso, ele já tinha trabalhado na Formula One Management na revisão de 2022, a que trouxe o efeito solo de volta para a F1.
A trajetória dele no paddock é longa, com passagens por Williams, Toyota, Enstone (na fase Renault em 2010–2011) e Williams de novo como chefe de aerodinâmica. Significa que ele conhece a fábrica em Enstone por dentro e chega sem precisar de tempo de adaptação cultural — coisa que pesou no anúncio oficial publicado pela própria Alpine no site da Formula 1.
A questão óbvia — conflito de interesse — foi resolvida pelo período de gardening leave. O acordo de saída da FIA foi assinado em novembro de 2025, e os seis meses de afastamento obrigatório vencem agora em maio. É a mesma régua aplicada quando engenheiros migram entre equipes em meio à temporada.
Por que a Alpine criou um cargo só para ele
A estrutura técnica de Enstone passou por meses turbulentos entre 2024 e 2025. David Sanchez, ex-Ferrari e ex-McLaren, assumiu o comando técnico em janeiro de 2025 e herdou três departamentos com chefes praticamente sem comunicação cruzada: aerodinâmica, performance de pista e simulação. O cargo criado para Somerville cobre exatamente esse vão — ele responde a Sanchez e tem autoridade transversal sobre os três grupos.
Na prática, o que isso muda no curto prazo:
| Área | Antes (1º trimestre de 2026) | Com Somerville |
|---|---|---|
| Definição de janela aero | Chefe de aero + Sanchez | Somerville centraliza |
| Correlação túnel de vento × pista | Reuniões semanais | Reuniões diárias |
| Briefings com piloto | Performance + estratégia | Performance + aero juntos |
| Roadmap do A527 | Em rascunho | Aprovação executiva acelera |
Não é à toa que o anúncio foi feito assim — discreto, sem coletiva, mas com Sanchez assinando o texto. A Alpine fez questão de mostrar que a hierarquia segue clara, sem fricção interna. É o mesmo modelo que a Ferrari adotou em 2023 ao trazer Enrico Cardile como Diretor Técnico de Chassi: criar camada de comando intermediária para acelerar decisão técnica sem trocar o número 1.
O que esperar do Canadá e do desenvolvimento até 2027
No fim de semana de Montreal, o efeito do Somerville será essencialmente zero. O A526 já está congelado em macroatualizações — qualquer reforma estrutural de assoalho ou difusor passou pelo deadline de Miami. Quem vai ditar o ritmo do carro nessa janela do calendário ainda é o pacote desenhado para o bloco americano e mantido para o Canadá, com pequenos ajustes para a temperatura mais baixa em Montreal.
O ponto de inflexão é o A527. Somerville chega com tempo de sobra para influenciar a arquitetura aerodinâmica do carro de 2027 — segundo ano do regulamento, em que a regra normalmente se torna mais previsível e o ganho vem da maturidade do pacote, não da ideia original. É exatamente nesse cenário que a experiência dele na FIA pesa: ele sabe onde os limites estão escritos e onde existe margem de interpretação na redação técnica do regulamento 2026 — particularmente nas asas ativas e na geração de downforce em modo low-drag.
A leitura de Briatore, repetida em entrevistas após Miami, é coerente com a contratação: a Alpine não quer ser o melhor carro do meio do grid em 2026, quer estar discutindo Q3 com Mercedes e Aston Martin em 2027. Para fazer isso, precisa de mais que um diretor técnico — precisa de alguém com fluência em regulamento que possa antecipar a próxima dobra. Somerville é exatamente esse perfil.
Resta saber se o time de Enstone, que cultivou nos últimos dez anos a fama de queimar talento técnico (Bell, Permane, Budkowski, Famin), vai conseguir entregar o ambiente que ele precisa. A contratação é um sinal forte. A entrega vai depender da capacidade de Sanchez de proteger a estrutura que acabou de montar.
Perguntas frequentes
Quem é Jason Somerville e por que ele entrou para a Alpine?
Engenheiro britânico que foi Chefe de Aerodinâmica da FIA entre 2022 e abril de 2026, ajudando a desenhar o regulamento que vigora hoje na F1. A Alpine criou para ele o cargo de Deputy Technical Director, com início imediato em 15 de maio.
A quem Jason Somerville responde dentro da Alpine?
Diretamente a David Sanchez, Executive Technical Director da equipe. Somerville lidera a integração entre os grupos de aerodinâmica, performance e simulação em Enstone.
Há conflito de interesse em contratar o ex-chefe de aero da FIA?
Não. Somerville cumpriu seis meses de gardening leave após acertar a saída da FIA em novembro de 2025, prazo exigido para evitar transferência de informação sensível sobre regulamento e fiscalização técnica.
Quando o trabalho de Somerville deve aparecer no carro?
O impacto no A526 deste ano é marginal — a fábrica já entrou no período de congelamento aerodinâmico das atualizações principais. A assinatura dele deve aparecer no A527, programado para 2027, e em parte do desenvolvimento de túnel de vento ainda em 2026.
Por que essa contratação chega antes do GP do Canadá?
A Alpine quer Somerville posicionado antes do início do segundo bloco europeu e do sprint do Canadá, onde o A526 vai enfrentar pela primeira vez um pacote de upgrades vindo de equipes maiores no novo regulamento.