Alpine perde 25% de túnel de vento e paga o preço do salto
A Alpine saiu do último lugar de 2025 para o 5º em 2026 — e a FIA cobrou a conta. O corte no túnel de vento tira 25% do tempo de desenvolvimento justo na virada do campeonato com Colapinto e Gasly.

Existe uma ironia cruel embutida no regulamento da Fórmula 1, e a Alpine acabou de tropeçar nela. Depois de sair do fundo do grid em 2025 e emplacar a melhor temporada em anos, a recompensa que chegou de Paris foi um corte: a partir de 1º de julho, a equipe de Franco Colapinto e Pierre Gasly perde 25% do tempo de túnel de vento. A Alpine paga, na prática, o preço do próprio salto — e paga justo no ano em que todo mundo mais precisa desenvolver.
Andei conversando com gente do paddock sobre isso em Silverstone, e a leitura é unânime: é o tipo de dor de cabeça que só um time em ascensão tem. O problema é o timing.
O corte no túnel de vento que veio junto com o sucesso
A conta é fria e vem do sistema de ATR (Aerodynamic Testing Restrictions), aquele mecanismo da FIA que redistribui tempo de desenvolvimento conforme a posição no campeonato. A referência-base, 100%, pertence ao 7º colocado. Cada posição acima tira 5%; cada posição abaixo devolve 5%. Quem lidera sofre, quem apanha ganha fôlego.
A Alpine terminou 2025 em último. Isso lhe garantiu a cota máxima no primeiro semestre de 2026: 115% da referência, o teto do grid. Mas a tabela é recalibrada no meio do ano, e na fotografia tirada em 21 de junho a equipe já aparecia em 5º. Resultado imediato: a cota despencou para 90% a partir de 1º de julho. Uma queda de 25 pontos percentuais — um quarto de todo o tempo de simulação e ensaios que a fábrica de Enstone tinha disponível.
Para efeito de comparação, é o mesmo remédio amargo que a Williams engoliu em 2025, quando um bom início de temporada custou horas de desenvolvimento. A diferença é que a Alpine leva o corte num momento particularmente sensível, com o regulamento técnico de 2026 ainda pedindo refinamento constante de carros que ninguém domina por completo.
Por que dói mais em 2026
Em uma temporada de estabilidade, perder um pedaço do túnel de vento é administrável. Em 2026, com carros novos, motores novos e aerodinâmica ativa, cada rodada de ensaio vale ouro. A Alpine apostou pesado nesta virada — trocou a Renault pela Mercedes e reorganizou o projeto para brigar no meio de grid, e a aposta deu certo. O A526 saltou para a quinta força do campeonato.
Só que a briga logo atrás está pegando fogo. Depois do GP da Inglaterra, o Mundial de Construtores mostra a Alpine com apenas um ponto de vantagem sobre a Racing Bulls:
| Pos | Equipe | Pontos |
|---|---|---|
| 1 | Mercedes | 333 |
| 2 | Ferrari | 255 |
| 3 | McLaren | 179 |
| 4 | Red Bull | 128 |
| 5 | Alpine | 60 |
| 6 | Racing Bulls | 59 |
| 7 | Haas | 21 |
Um ponto. É o que separa a Alpine de perder a quinta posição — e, com ela, ver a própria cota de desenvolvimento cair ainda mais na próxima recalibração. O sistema, no fundo, empurra a equipe para uma zona de conforto perigosa: subir custa túnel de vento, cair devolve túnel de vento. Quem está exatamente no meio, como a Alpine e a Racing Bulls, vive nessa gangorra.
Colapinto, Gasly e o clima dentro de casa
No cockpit, o momento também é de tensão. Em Silverstone, Colapinto cruzou em 9º e Gasly em 10º — dois pontos que, para a equipe, valem o mesmo, mas que para o francês não caíram bem. "Nono e décimo dá no mesmo para o time, mas para mim não, e vamos conversar sobre isso", avisou Gasly, incomodado com o desfecho das voltas finais. Colapinto rebateu a ideia de estratégia favorável e creditou tudo a um pit stop lento do companheiro.
É o tipo de atrito que aparece quando dois pilotos brigam pelo mesmo espaço num carro que finalmente pontua. Não é crise, mas é combustível para o vestiário — e vale lembrar que o futuro da dupla ainda passa pela mesa de Flavio Briatore, que não costuma ter paciência com brigas internas.
Com menos túnel de vento para trabalhar, a Alpine terá de ser cirúrgica no segundo semestre: menos experimentos, mais certezas. A boa notícia é que a base do A526 é sólida. A má é que os rivais diretos no meio de grid chegam agora com mais horas de desenvolvimento na manga — exatamente o que a Alpine acabou de perder. O próximo teste vem já no GP da Bélgica, em Spa, entre 17 e 19 de julho.
Fontes: Infobae, The Race, RaceFans e Motorsport.
Perguntas frequentes
Por que a Alpine perdeu tempo de túnel de vento em 2026?
Porque subiu de último em 2025 para 5º na parametrização de meio de ano da FIA. O sistema ATR dá mais tempo de desenvolvimento a quem está pior no campeonato, então o salto da Alpine virou penalidade: de 115% para 90% da referência.
Quanto de desenvolvimento aerodinâmico a Alpine perdeu?
Cerca de 25% do tempo permitido, comparando o primeiro e o segundo semestre de 2026. A alocação caiu de 115% para 90% da referência-base, que equivale ao 7º colocado.
Como funciona o corte de túnel de vento (ATR) na F1?
A FIA usa uma escala móvel: o 7º colocado é a referência (100%), e cada posição acima ou abaixo muda a cota em 5%. Quem lidera desenvolve menos; quem apanha desenvolve mais. A tabela é recalibrada duas vezes por ano.
Em que posição a Alpine está no Mundial de Construtores de 2026?
Em 5º lugar com 60 pontos após o GP da Inglaterra, apenas um ponto à frente da Racing Bulls (59). É a melhor fase da equipe desde a virada de motor para a Mercedes.