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Alpine leva pacote de upgrades a Miami para defender o 5º lugar

De última colocada em 2025 a quinta no campeonato de 2026 com 21 pontos em três GPs, a Alpine chega a Miami com novidades aerodinâmicas, livery especial Mercado Libre e a missão de corrigir a subviragem que ainda limita o A526 nas curvas rápidas.

PorFernando Almeida
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Alpine leva pacote de upgrades a Miami para defender o 5º lugar
Foto: Formula1.com / Reprodução — Alpine entrou na pausa de abril em 5º e prepara upgrades para tentar manter a posição em Miami

Há um ano, a Alpine entrava na pausa de abril com 22 pontos em 24 corridas e a fama de lanterna oficial do grid. Em 2026, a equipe de Enstone chega ao mesmo intervalo do calendário com 21 pontos em três GPs, o quinto lugar no Mundial de Construtores e Flavio Briatore garantindo que o A526 está "no mix com a Red Bull" entre o quarto e o sexto carro mais rápido do paddock. Miami, que abre o bloco americano da temporada, é o teste para confirmar se a virada é tendência ou sorte de calendário.

A janela de quase um mês entre o GP do Japão e o lights out no Hard Rock Stadium serviu para a equipe acelerar o que Steve Nielsen, diretor de corrida desde setembro, classificou como "alguns aspectos" do pacote — leia-se: novidades aerodinâmicas que a Alpine não previa trazer tão cedo, mas que a posição inesperada na tabela transformou em prioridade.

Da lanterna ao pelotão de elite

Pierre Gasly é o motor de 15 dos 21 pontos do time. Pontuou em todas as três corridas — décimo na Austrália, sexto em Xangai, sétimo em Suzuka — e, no Japão, segurou Max Verstappen no stint final, o tipo de cena impensável em 2025. Franco Colapinto soma um único ponto, da P10 em Xangai, e segue sem bater o companheiro na classificação.

Os pilotos não mudaram, mas tudo ao redor mudou. A troca do motor Renault pelo Mercedes — contrato fechado até 2030, com caixa de câmbio incluída em 2026 — foi o gatilho técnico de uma virada planejada desde meados de 2025, quando a equipe abriu mão do desenvolvimento daquela temporada para concentrar recursos em 2026. Gasly, na época, resumiu sem rodeios: "Esqueçam este ano, vamos trabalhar em 2026".

Soma-se a isso a estabilidade administrativa que a Alpine não tinha. Briatore retomou a cadeira de conselheiro executivo em junho de 2024 e Nielsen — ex-FOM, ex-Williams — chegou em setembro de 2025. Para o contexto completo, vale revisitar a virada que colocou a Alpine à frente da Red Bull no construtores.

O ponto fraco que pode atrapalhar em Miami

Nielsen falou abertamente do problema do A526 depois do GP do Japão. "Temos alguns problemas com subviragem em alta velocidade, que precisamos corrigir", disse, classificando a deficiência como "provavelmente o maior ponto fraco do carro". O sintoma aparece em mudanças rápidas de direção — exatamente o que define o primeiro setor de Miami, com o esse rápido entre as curvas 4 e 6.

Nielsen reconheceu o risco: "O setor 1 vai ser complicado". Por outro lado, o restante do traçado da Flórida — com a longa reta da rodovia, frenagens duras e a sequência lenta entre as curvas 11 e 16 — joga a favor de um carro que, segundo o próprio diretor, "vai bem em stints longos, com carga alta de combustível, e parece competitivo" no ritmo de corrida. Faz da classificação o ponto crítico: Gasly fez Q3 nas duas últimas etapas, Colapinto saiu do Q2 nas três. Em Miami, qualquer coisa abaixo de Q3 para o francês entrega ao Haas — quarto e dois pontos à frente — chance de ampliar a vantagem.

O pacote que estreia neste fim de semana

A Alpine não detalhou o conteúdo dos upgrades, mas Nielsen confirmou que o time "trabalhou sem descanso para acelerar alguns elementos" durante a pausa. O foco declarado é atacar a subviragem de alta velocidade — o que sugere componentes ligados ao assoalho, difusor e asa dianteira, as peças que mexem na distribuição de carga aerodinâmica nas seções rápidas.

Há também o componente cosmético que, em Miami, é negócio. A equipe retomou a livery especial Mercado Libre — o aperto de mãos amarelo volta ao engine cover e à asa traseira, com peso comercial óbvio: Colapinto é argentino, Mercado Libre é argentina, e a base latino-americana de Miami transforma o GP em vitrine. O piloto, aliás, passou parte da pausa em Buenos Aires fazendo exibição com um Lotus E20 que, segundo a equipe, atraiu mais de 600 mil espectadores.

A pressão prática para Briatore é simples: em um sprint weekend que pode reordenar 2026, com até 34 pontos em jogo, a Alpine não pode dar mole. Cada décimo de subviragem é um décimo a mais para Haas e Aston Martin — e cinco a menos de margem para a Red Bull, empatada em pontos atrás.

"Sabemos que nossos rivais trabalharam duro nos próprios upgrades", disse Nielsen. "Vai ser interessante ver as diferenças na sexta-feira". A frase foi cuidadosa, mas o subtexto não é: a Alpine não quer só pontuar em Miami. Quer mostrar que o quinto lugar não é acaso. Some-se 70% de chance de chuva no domingo e o pacote pode ser tanto a chance de virada definitiva quanto a exposição do calcanhar de Aquiles do A526. Como Briatore disse no início do ano: "Não tem mais desculpa". Em Miami, ele vai cobrar.