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Mônaco 2026 vai ser uma procissão — e a Ferrari agradece

A F1 inteira tratou a retirada da asa móvel de Mônaco como velório. Carla Ribeiro discorda: a procissão de Monte Carlo é a corrida mais honesta que vai sobrar em 2026 — e a única em que a Ferrari de Leclerc pode parar o trem-bala da Mercedes.

PorCarla Ribeiro
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Mônaco 2026 vai ser uma procissão — e a Ferrari agradece
Foto: Wikipedia / CC-BY-SA — Charles Leclerc, vencedor em casa em 2024 e o maior trunfo da Ferrari para o GP de Mônaco 2026

A Fórmula 1 passou a semana inteira tratando a decisão da FIA como velório. Tiraram a asa móvel ativa do GP de Mônaco 2026 e a reação foi unânime: lá vem a procissão, lá vem o tédio, lá vêm duas horas de fila indiana entre os muros de Monte Carlo. Eu vou na contramão. Mônaco sem asa móvel não é o problema de 2026 — é a corrida mais honesta que vai sobrar no calendário. E, de quebra, é a melhor notícia que a Ferrari recebeu o ano inteiro.

Mônaco 2026 não precisava de asa móvel para ser procissão

Vamos aos fatos antes do choro. A FIA não "estragou" Monte Carlo: ela só admitiu o óbvio. Como a própria entidade detalhou ao publicar o mapa do circuito, não há uma única reta que cumpra a regra dos três segundos de ativação, e abrir a asa na saída do Túnel seria pedir para um carro chegar voando na chicane. Some o circuito mais estreito do ano a um recurso que precisa de espaço, e o resultado é matemático: o Straight mode fica de fora.

Mas quem trata isso como tragédia tem memória curta. Mônaco é procissão desde sempre. Em 2024, Charles Leclerc venceu em casa pela primeira vez — o primeiro monegasco a conseguir isso em 93 anos — e a corrida foi um trem de duas horas decidido na bandeira vermelha da primeira volta, com todo mundo trocando pneu de graça e andando em modo de gestão até a bandeirada. Ninguém ultrapassou ninguém na frente. E foi um dos domingos mais emocionantes do ano, porque a tensão de Mônaco nunca esteve na ultrapassagem. Está em não bater. Tirar a asa móvel não muda a natureza da prova: só devolve Mônaco ao que Mônaco sempre foi.

O que a asa móvel esconde no resto do calendário

Aqui mora a parte que ninguém quer falar. O motivo de Mônaco assustar tanto em 2026 não é Mônaco — é o contraste com as outras cinco corridas do ano. Desde a Austrália, a F1 vendeu o pacote novo como a salvação do espetáculo: asa móvel ativa, Overtake Mode, recarga elétrica, ultrapassagem para todo lado. Só que a imprensa especializada já levantou a pergunta incômoda: aquilo é corrida de verdade ou é só Overtake Mode? Quando um carro passa o outro porque apertou um botão que entrega energia extra na zona certa, o que estamos aplaudindo — o piloto ou o software?

Mônaco responde essa pergunta de um jeito que nenhum engenheiro de marketing da F1 vai gostar. Sem zona de asa móvel, com o Overtake limitado a um único ponto antes da Rascasse, o piloto fica sozinho com o que tem entre as orelhas e o pé direito. Não tem gadget para encobrir um erro de frenagem, não tem boost para apagar uma volta de classificação medíocre. É a versão sem photoshop da Fórmula 1 de 2026. Se o resto do ano é uma corrida de videogame com cheat ativado, Monte Carlo é o save sem trapaça. Por isso eu não tô de luto: tô curiosa para ver quem realmente sabe pilotar quando tiram os brinquedos da mão.

Por que a procissão é presente de aniversário para a Ferrari

E agora o pulo do gato, que é onde a coisa fica boa para quem torce de vermelho. O campeonato de 2026 virou propriedade da Mercedes: Antonelli abriu 131 pontos com quatro vitórias seguidas, Russell já é coadjuvante na própria equipe e a escuderia de Stuttgart lidera a Ferrari por 72 pontos entre os construtores. Em pista normal, com asa móvel e Overtake liberados, a Mercedes pega o pacote dela, encosta e atropela. A Ferrari, terceira com Leclerc somando 75 pontos, não tem ritmo de corrida para segurar esse trem-bala numa reta de verdade.

Mônaco apaga exatamente essa vantagem. Numa pista onde ninguém ultrapassa, ritmo de corrida vira detalhe e o Overtake Mode vira enfeite. O que decide é a volta de sábado — e em uma volta seca, dentro dos muros, a SF-26 e o Leclerc são outra coisa. Estamos falando do cara que fez pole em 2021, 2022 e 2024 em casa, que conhece cada zebra de Monte Carlo de olho fechado. A Mercedes pode ser imbatível em 90% do calendário; nos 10% que sobram, esse fim de semana é o mais perigoso para ela. Enquanto a McLaren também aposta as fichas em Mônaco como tábua de salvação, é a Ferrari que tem o piloto certo na pista certa. A procissão que assusta o resto do grid é, para Maranello, a única janela aberta de 2026.

O contra-argumento existe — e eu rebato

Eu sei o que vem agora: "Mônaco é chato, não ultrapassa nada, devia sair do calendário." Conheço o discurso de cor, e ele está errado. O espetáculo de Mônaco nunca foi o domingo — é o sábado. A classificação em Monte Carlo é a coisa mais difícil que um piloto de F1 faz no ano inteiro, a milímetros do guard-rail, a 280 km/h, sabendo que o muro não perdoa. Pedir ultrapassagem em Mônaco é como reclamar que o boxe não tem gols. A graça é outra.

Tirar a asa móvel não matou Mônaco. Devolveu Mônaco para os pilotos. E num ano em que a Mercedes transformou o campeonato em desfile particular do Antonelli, eu vou torcer por uma procissão — desde que tenha um carro vermelho na ponta dela.

Minha aposta: Leclerc faz a pole no sábado e larga na frente. Se segurar a largada, ninguém tira. E aí a procissão mais criticada do ano vira a corrida mais bonita de 2026.

Perguntas frequentes

Por que tiraram a asa móvel do GP de Mônaco 2026?

A FIA não aprovou nenhuma zona de Straight mode em Monte Carlo. Pela regra dos três segundos, cada zona de ativação precisa durar mais que isso, e Monaco não tem reta longa o suficiente. Pesou também a segurança na saída do Túnel, onde os carros chegariam rápido demais com a asa aberta.

Quem lidera o Mundial de 2026 antes de Mônaco?

Kimi Antonelli, da Mercedes, com 131 pontos e quatro vitórias seguidas após o GP do Canadá. George Russell é o segundo, a 43 pontos. Charles Leclerc é o terceiro, com 75, e a Mercedes lidera a Ferrari por 72 pontos entre os construtores.

Charles Leclerc é bom em Mônaco?

É o maior especialista do grid em casa. Leclerc fez pole em 2021, 2022 e 2024 e venceu o GP de Mônaco em 2024, tornando-se o primeiro monegasco a vencer a corrida em 93 anos. Monte Carlo é, historicamente, o melhor terreno dele.

Por que Mônaco favorece a Ferrari em 2026?

Porque é a pista em que a vantagem de ritmo de corrida e o Overtake Mode da Mercedes valem menos. Sem ultrapassagem, a classificação de sábado decide quase tudo — e é justamente em uma volta seca que Leclerc e a SF-26 são mais competitivos.

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Sobre o autor

Carla Ribeiro

Colunista

Comentarista de TV. Opinião forte, sem filtros. Polêmica é o sobrenome.