Zandvoort: guia completo do circuito do GP da Holanda
As duas curvas com banking, o DRS que fica aberto dentro de uma curva inclinada e a razão técnica de ultrapassar ali ser tão difícil. O guia completo do circuito de Zandvoort, que se despede da F1 em 2026.

Zandvoort é um circuito que não deveria caber na Fórmula 1 moderna. Tem 4,259 km, 14 curvas, largura de pista que em alguns pontos parece de kartódromo e uma topografia de dunas que sobe e desce o tempo todo. A F1 de 2026, com carros de 1.030 kg e aerodinâmica ativa, corre num traçado desenhado em 1948 sobre linhas de comunicação abertas pelo exército alemão durante a ocupação.
E funciona — em parte porque, em 2020, os holandeses fizeram algo que nenhum outro circuito do calendário fez: inclinaram duas curvas.
Este guia do circuito de Zandvoort cobre o que importa tecnicamente: o que o banking faz com o carro, por que o DRS fica aberto dentro de uma curva inclinada, e o motivo de a corrida ser decidida quase sempre no pit lane e não na pista.
Zandvoort em números: a ficha técnica
| Item | Dado |
|---|---|
| Nome oficial | Circuit Zandvoort |
| Localização | Zandvoort, Holanda do Norte |
| Extensão | 4,259 km |
| Curvas | 14 (10 à direita, 4 à esquerda) |
| Voltas da corrida | 72 |
| Distância total | ~306,6 km |
| Zonas de DRS | 2 |
| Recorde de volta (F1) | 1:11.097 — Lewis Hamilton, Mercedes W12 (2021) |
| Inauguração | 7 de agosto de 1948 |
| Retorno à F1 | 2021 |
| Sentido | Horário |
O traçado é curto o bastante para que o tráfego seja um problema real na classificação: com voltas na casa dos 1min10s, quase todo mundo está na pista ao mesmo tempo no fim do Q1. E a corrida de 72 voltas é uma das mais longas em número de giros do calendário justamente porque cada volta é rápida.
As curvas com banking: o que Hugenholtz e Arie Luyendijk mudaram
Quando a F1 acertou o retorno a Zandvoort, o problema estava dado: o circuito era bonito, histórico e impossível de ultrapassar. A reforma conduzida pelo escritório italiano Dromo não alargou a pista — não havia espaço entre as dunas para isso. A solução foi inclinar duas curvas.
Hugenholtzbocht (curva 3) — uma esquerda em formato de tigela, com cerca de 18 graus de inclinação e um desnível de aproximadamente 4,5 metros entre a parte de baixo e a de cima. O nome homenageia Hans Hugenholtz, diretor do circuito entre 1949 e 1964.
Arie Luyendijkbocht (curva 14) — a última curva, também inclinada em torno de 18 graus, que despeja os carros direto na reta principal. Leva o nome do holandês bicampeão da Indy 500 (1990 e 1997).
O efeito técnico é o que interessa. Numa curva plana, toda a força lateral tem que ser absorvida pelo atrito do pneu. Numa curva inclinada, parte da carga vertical passa a apontar para dentro da curva — o próprio peso do carro ajuda a fazer a curva. Na prática:
- Mais velocidade de passagem com a mesma quantidade de downforce
- Duas trajetórias viáveis em vez de uma, porque a linha alta e a linha baixa passam a ser competitivas em velocidades diferentes
- Carga vertical maior sobre a suspensão, o que muda o acerto de altura e a janela de trabalho do pneu
Essa segunda linha é o ponto. Sem banking, o carro que tenta passar por fora perde aderência e sai da corrida por ali mesmo. Com 18 graus, a linha de fora vira uma opção — e a curva 3 é hoje um dos poucos lugares de Zandvoort onde acontece ultrapassagem de verdade.
DRS na curva inclinada: uma solução que só existe aqui
Zandvoort tem duas zonas de DRS, e a segunda é a mais curiosa do calendário: ela começa entre as curvas 13 e 14, ou seja, o DRS fica aberto dentro da Arie Luyendijkbocht.
Isso normalmente seria impensável. Abrir o DRS reduz o arrasto, mas reduz junto a carga aerodinâmica traseira — exatamente o que segura o carro numa curva rápida. Em qualquer outra pista, um carro com DRS aberto numa curva de alta velocidade simplesmente perde a traseira.
O banking é o que torna a manobra viável: a inclinação compensa a carga perdida com o aerofólio aberto. O carro chega à reta principal com o DRS já ativado desde antes da última curva, o que aumenta a velocidade final e transforma a reta de chegada no melhor ponto de ultrapassagem do circuito.
É engenharia de circuito resolvendo um problema de regulamento aerodinâmico — e é o tipo de detalhe que o pacote de 2026, com aerodinâmica ativa substituindo a lógica do DRS convencional, coloca sob nova luz. Em 2026 o carro alterna entre modos de baixo e alto arrasto por regulamento, não só em zonas demarcadas, e Zandvoort é um dos lugares onde essa mudança tem mais consequência prática.
Por que ultrapassar em Zandvoort continua difícil
Mesmo com banking e duas zonas de DRS, Zandvoort segue sendo um circuito de poucas trocas de posição. Três razões:
1. Não há freada forte no fim de reta longa. A ultrapassagem clássica da F1 depende de uma reta que termina numa curva lenta — o perseguidor usa o slipstream, freia mais tarde e ganha a posição. Em Zandvoort só a reta principal, terminando na Tarzanbocht, oferece isso.
2. A pista é estreita. Duas trajetórias lado a lado cabem em poucos pontos. Um erro na tentativa não custa uma posição: custa a asa dianteira.
3. O ar sujo pesa mais. Um traçado de curvas encadeadas e média-alta velocidade é o pior cenário para quem persegue. O dirty air degrada o pneu dianteiro do carro de trás justamente onde ele precisaria de aderência para chegar perto.
O resultado é que a estratégia decide. O undercut funciona bem em Zandvoort porque a volta é curta — a perda de tempo no pit lane é compensada rápido —, e boa parte das posições finais é definida no timing da parada, não em disputa roda a roda.
Setor por setor: o que o traçado exige
Setor 1 — Tarzanbocht e Hugenholtzbocht. A Tarzan (curva 1) é a freada mais dura do circuito, um grampo à direita no fim da reta principal, e o único lugar onde a largada realmente reordena o grid. Na sequência vem a Gerlachbocht e a tigela inclinada da Hugenholtz.
Setor 2 — Scheivlak e o miolo. A Scheivlak (curva 7) é a curva-assinatura de Zandvoort: uma direita rápida, cega, feita em descida, com a saída escondida atrás da duna. É onde os pilotos mais reclamam de falta de referência visual e onde o acerto de estabilidade traseira aparece.
Setor 3 — Hans Ernst, Kumho e Arie Luyendijk. O trecho final é técnico e lento em comparação, terminando na curva inclinada que joga o carro na reta. É aqui que a volta se ganha ou se perde na classificação, porque o tempo de reta depende inteiramente da velocidade de saída da curva 14.
O acerto ideal é um compromisso incômodo: o setor 2 pede carga aerodinâmica, o setor 3 pede reta rápida. Nenhuma equipe consegue os dois, e a escolha define o carro para o fim de semana inteiro.
2026: o último GP da Holanda, e o primeiro com sprint
A F1 confirmou uma extensão de apenas um ano em dezembro de 2024, e o promotor decidiu não seguir depois disso. O GP da Holanda de 2026 é o último do contrato atual — a corrida sai do calendário a partir de 2027, encerrando o ciclo aberto em 2021.
A despedida vem com uma novidade: é a primeira vez que Zandvoort recebe o formato sprint. A 12ª etapa da temporada acontece entre 21 e 23 de agosto, com um único treino livre antes da Sprint Qualifying.
Isso é particularmente cruel num circuito como esse. Zandvoort pune erro de acerto mais do que a média — pista estreita, sem escapatória generosa, com dois trechos que pedem carros opostos. Ter uma hora de pista antes de o carro entrar em parc fermé reduz drasticamente a margem para corrigir. Quem chegar com o acerto errado na sexta passa o fim de semana inteiro com ele.
Os horários completos de todas as sessões em Brasília e onde assistir estão no guia de transmissão do GP da Holanda 2026, e o hub da etapa fica em /gp/holanda-2026.
Vencedores da era moderna (2021–2025)
| Ano | Vencedor | Equipe |
|---|---|---|
| 2021 | Max Verstappen | Red Bull |
| 2022 | Max Verstappen | Red Bull |
| 2023 | Max Verstappen | Red Bull |
| 2024 | Lando Norris | McLaren |
| 2025 | Oscar Piastri | McLaren |
O padrão é claro: três anos de domínio de Max Verstappen em casa pela Red Bull, seguidos de duas vitórias da McLaren — com Lando Norris em 2024 e Oscar Piastri em 2025, este último num fim de semana em que Norris abandonou da segunda posição por falha de motor.
Para 2026 o cenário mudou de novo. A F1 chega a Zandvoort com Kimi Antonelli liderando o campeonato com 219 pontos após 11 etapas, 50 à frente de Lewis Hamilton, e com a Mercedes em 379 pontos nos construtores. Verstappen está em sexto, com 109 — a maior distância entre ele e a liderança em uma volta do recesso desde que voltou a correr em casa. A classificação atualizada e o calendário completo mostram o resto do quadro.
De 1948 às dunas de 2026
O circuito nasceu de uma circunstância improvável. As estradas usadas no traçado original foram abertas pelas forças de ocupação alemãs durante a Segunda Guerra, e o desenho da pista foi adaptado sobre elas por John Hugenholtz depois do fim do conflito. A inauguração foi em 7 de agosto de 1948.
A F1 correu ali de 1952 a 1985, com um intervalo, antes de o circuito perder o traçado longo para a expansão urbana e para restrições de ruído. O retorno em 2021 só foi possível porque a reforma resolveu simultaneamente o problema esportivo (as curvas inclinadas) e o logístico (acesso, infraestrutura, capacidade).
O que sai do calendário em 2027 não é um circuito qualquer. É o único do grid com banking real, o único onde o DRS fica aberto dentro de uma curva, e um dos poucos onde o desenho da pista — e não o regulamento técnico — foi a variável ajustada para melhorar a corrida. Circuitos com personalidade forte são exatamente o que o calendário tem em menor quantidade, e vale comparar com o caso de Interlagos, que resolve o mesmo problema por um caminho totalmente diferente.
Perguntas frequentes
Qual o tamanho do circuito de Zandvoort?
4,259 km com 14 curvas. É um dos traçados mais curtos e estreitos do calendário da F1, e a corrida do GP da Holanda tem 72 voltas.
Quantas curvas com banking tem Zandvoort?
Duas: a Hugenholtzbocht (curva 3), com cerca de 18 graus de inclinação, e a Arie Luyendijkbocht (curva 14), também com cerca de 18 graus. Nenhum outro circuito do calendário atual da F1 tem banking desse nível.
Por que é tão difícil ultrapassar em Zandvoort?
O traçado é estreito, tem elevações constantes e quase nenhuma reta longa antecedida por freada forte. As duas zonas de DRS existem justamente para compensar isso, e mesmo assim a maior parte das posições muda no pit stop.
Qual o recorde de volta de Zandvoort na F1?
1:11.097, de Lewis Hamilton com a Mercedes W12, em 2021. O tempo segue de pé porque os carros de 2022 em diante são mais pesados e o traçado não mudou.
Zandvoort sai do calendário da F1 depois de 2026?
Sim. O promotor optou por não renovar depois da extensão de um ano, e o GP da Holanda de 2026 é o último do contrato atual — encerrando o ciclo que começou em 2021.