AnálisesReportagem

Cadillac em 2026: o ponto perdido e a conta da confiabilidade

A Cadillac chega ao recesso com zero pontos em 11 corridas — e o único ponto da Aston Martin no ano é justamente o que os comissários tiraram de Sergio Pérez em Mônaco. O ritmo apareceu; a confiabilidade, não. O que a equipe de Graeme Lowdon precisa resolver antes de Zandvoort.

PorFernando Almeida
Publicado
Leitura6 min
Cadillac em 2026: o ponto perdido e a conta da confiabilidade
A Cadillac fecha o primeiro semestre da estreia sem pontuar, com nove abandonos em 22 largadas. Foto: Cadillac F1 Team / Reprodução

Tem uma conta pendente no paddock que ninguém da Cadillac gosta de fazer em voz alta, mas todo mundo faz de cabeça. A Aston Martin tem exatamente 1 ponto em 2026. Esse ponto veio do 10º lugar de Fernando Alonso em Mônaco. E o 10º lugar de Alonso em Mônaco existe porque os comissários tiraram o de Sergio Pérez. Ou seja: a única coisa que separa a Cadillac do último lugar no Mundial de Construtores é uma penalidade de dez segundos aplicada num domingo de junho.

É assim que a equipe mais nova do grid entra no recesso de verão: com um resultado real conquistado na pista, apagado no papel, e uma classificação que insiste em mostrar zero.

O que o primeiro semestre da Cadillac mostrou

Onze corridas, dois carros, 22 largadas. Nove terminaram no box antes da bandeirada.

Valtteri Bottas abandonou na Austrália, em Mônaco, em Barcelona e na Áustria — a própria Fórmula 1 listou os quatro — e somou o quinto em Budapeste. Pérez chegou à Hungria com três abandonos contabilizados e saiu de lá com o quarto. Um duplo DNF para fechar o semestre não é o cartão de visitas que Graeme Lowdon queria mandar para Detroit antes das férias.

O relatório da própria equipe sobre o GP da Hungria é honesto ao ponto de doer. Bottas largou em 21º; Pérez saiu do pit lane depois de modificações no carro antes da corrida. O finlandês parou com superaquecimento de freios — e o detalhe cruel é que a Cadillac tinha levado a Budapeste justamente um pacote de refrigeração de freios para resolver isso. "É uma pena, porque tínhamos upgrades para tratar a refrigeração dos freios, mas não foi suficiente para as condições extremas", disse Bottas. Pérez brigou com o balanço do carro no primeiro stint, melhorou no segundo e também não viu a bandeirada.

O padrão se repete desde a estreia em Melbourne: o carro entrega janelas de ritmo competitivo, e alguma coisa quebra antes de o ritmo virar resultado.

O ritmo existe — a consistência é que não aparece

Aqui é onde o diagnóstico fica interessante, porque não é um caso de carro lento. É um caso de carro imprevisível.

Miami é o retrato do problema. No sábado de sprint, a Cadillac ficou a 0,3s de entrar no Q2. No dia seguinte, a mesma equipe, no mesmo circuito, estava 1,7s atrás. Um segundo e quatro décimos de diferença entre uma sessão e outra não se explica por evolução de pista — se explica por uma janela de acerto estreita demais, o tipo de coisa que só some com quilometragem e correlação de túnel de vento. Os upgrades levados a Miami e o pacote aerodinâmico do Canadá mexeram o ponteiro, mas mexeram de forma desigual.

O box, pelo menos, virou gente grande rápido: 23,228s de pit stop em Miami contra 22,042s da Mercedes. Para uma operação que existia no papel 18 meses antes, um segundo de distância para o benchmark do grid é um número que Lowdon pode mostrar com orgulho.

A degradação de pneu é o outro item da lista, e Pérez foi direto sobre a urgência: "Estamos com uma pressa enorme de achar performance porque sabemos que a Aston vai melhorar". Ele estava certo na leitura — e a leitura se voltou contra ele. A Aston Martin melhorou mesmo, como mostrou o salto de 1,8s do AMR26 'B' em Budapeste, depois de um primeiro semestre que foi um desastre de proporções raras.

A meta que os dois pilotos calibraram em público

O que chama atenção nas falas de Pérez e Bottas no recesso é a diferença de temperatura entre os dois.

Pérez colocou um número na mesa. "Conseguimos [um ponto] em Mônaco, mas infelizmente foi tirado de nós. No momento, a distância é grande demais para recuperar. Acredito que, depois do verão, se conseguirmos achar entre meio segundo e oito décimos, ele vai estar lá." É uma meta específica, quantificada, do tipo que um piloto só verbaliza quando viu o plano de desenvolvimento e acredita nele.

Bottas foi mais seco. "Não estou olhando para a situação dos pontos. Para isso a gente precisaria dar um passo grande ou ter sorte." O finlandês também apontou que a distância para a Aston Martin vinha aumentando — e vinha mesmo.

Nenhum dos dois está errado. Pérez descreve o cenário em que a Cadillac executa o upgrade pós-recesso; Bottas descreve o cenário em que ela executa e ainda assim não basta, porque o meio de grid inteiro também trouxe peças novas. Os dois moram no mesmo box.

O que está realmente em jogo até 2029

A tentação é medir a Cadillac pela tabela. A tabela é o pior instrumento possível para isso.

Esta é uma equipe com motor Ferrari alugado até 2028, enquanto a General Motors desenvolve a própria unidade de potência para 2029. É uma estrutura dividida entre Silverstone, a operação de motorsport da GM em Concord, na Carolina do Norte, e uma base nova em Fishers, Indiana, prevista para ficar pronta no primeiro trimestre de 2027. Metade do que a Cadillac faz em 2026 não aparece no resultado de domingo — aparece na curva de aprendizado que vai definir se, em 2029, ela é uma equipe de fábrica de verdade ou um cliente com adesivo bonito.

Foi por essa mesma lógica que a equipe escolheu dois vencedores de GP para o ano 1, e é por ela que o mercado de 2027 já circula em torno de Colton Herta. Veterano no ano 1 resolve correlação; jovem no ano 3 resolve futuro.

O teste real é Zandvoort

A F1 volta em 23 de agosto, e a Cadillac não poderia ter um retorno menos generoso: o GP da Holanda é fim de semana de sprint. Menos treino livre, menos tempo para achar a janela estreita de acerto que atormentou a equipe o ano inteiro, e um circuito — Zandvoort — que castiga carro com balanço instável em curva de raio longo.

Se os meio segundo a oito décimos que Pérez pediu aparecerem ali, o primeiro ponto da história da Cadillac vira questão de tempo. Se não aparecerem, a equipe passa o segundo semestre defendendo uma 11ª colocação de uma Aston Martin em ascensão — e carregando a ironia de estar atrás por causa do ponto que ela mesma marcou em Mônaco.

Fonte principal: Formula1.com e The Race.

Perguntas frequentes

Quantos pontos a Cadillac marcou em 2026?

Nenhum. Após 11 corridas, a Cadillac é a 11ª e última colocada do Mundial de Construtores com zero pontos, atrás da Aston Martin, que tem 1.

Por que a Cadillac perdeu o primeiro ponto da história em Mônaco?

Sergio Pérez cruzou a linha em 10º no GP de Mônaco, mas levou 10 segundos de punição por posicionar a roda dianteira direita fora do box numa largada parada no fim da corrida. Caiu para 15º e o ponto foi para Fernando Alonso.

Qual é o maior problema da Cadillac na estreia na F1?

A confiabilidade. Entre Valtteri Bottas e Sergio Pérez foram nove abandonos em 22 largadas até a Hungria, incluindo um duplo DNF em Budapeste por superaquecimento de freios e problema de balanço.

Que motor a Cadillac usa em 2026?

Motor Ferrari, num acordo plurianual que vai até 2028. A General Motors desenvolve a própria unidade de potência para estrear em 2029.

Quando a Cadillac volta a correr depois do recesso?

No GP da Holanda, em Zandvoort, no dia 23 de agosto de 2026 — um fim de semana com sprint, o que dá menos treino livre e mais pressão sobre o acerto.