Cadillac estreia na F1: sexta de aprendizado em Albert Park
A 11ª equipe da Fórmula 1 viveu sua primeira sexta-feira histórica em Albert Park com resultado misto: Bottas completou 52 voltas e ficou a 3,9s do ritmo, enquanto Pérez parou na pista no TL2 sem marcar tempo.

O paddock de Albert Park já viu muita coisa nos trinta anos que a Fórmula 1 visita Melbourne. Campeões coroados, zebras épicas, abandonos dramáticos na última volta. Mas nesta sexta-feira, 6 de março de 2026, a Cadillac acrescentou um capítulo inédito: a 11ª equipe da história moderna da categoria levou seus carros à pista pela primeira vez em um fim de semana de Grande Prêmio.
Não é pouca coisa. É o tipo de momento que daqui a dez anos as pessoas vão lembrar onde estavam.
O dia foi, como era de se esperar de uma estreia, um misto de promessa e frustração. Valtteri Bottas construiu uma base sólida com paciência e 52 voltas no total. Sergio Pérez viveu o pior lado do script: problemas técnicos, saída de pista e nenhum tempo registrado no TL2. O balanço do dia é complicado de resumir em números porque a história da Cadillac nesta sexta tem muito mais a ver com o que acontece nos bastidores do que com qualquer planilha de tempos.
O dia de Bottas: disciplina antes de tudo
Se a equipe tem um herói desta sexta, ele atende pelo nome de Valtteri Bottas. O finlandês — que não corria na Fórmula 1 desde o fim de 2024, quando encerrou seu ciclo na Alfa Romeo/Sauber — adaptou-se ao carro desconhecido com uma maturidade que só vem de quem já passou por muita coisa no paddock.
No TL1, Bottas terminou em 17º com um gap de 3,7 segundos para Charles Leclerc, que liderou a sessão. No TL2, ficou em 19º a 3,9 segundos do ritmo de Oscar Piastri. Os números não encantam, mas o volume de trabalho impressiona: 52 voltas no dia, banco de dados construído, carro entregue de volta para os engenheiros com informação útil.
"Não tivemos o carro montado da forma ideal, mas fizemos o máximo possível. Há muito dado bom para analisar", disse Bottas depois das sessões. É o tipo de resposta que um engenheiro gosta de ouvir no final de um primeiro dia.
A jornada difícil de Pérez
O outro lado da história foi bem menos tranquilo. Sergio Pérez, que ficou 14 meses fora da Fórmula 1 após sua saída da Red Bull no final de 2024, bateu de frente com a crueldade das estreias.
No TL1, o mexicano completou apenas 14 voltas antes de sair pela tangente na curva 5 — um spin causado pelo que ele chamou de "freio motor excessivo". No TL2, a situação piorou: Pérez ficou praticamente toda a sessão parado na garagem, saiu nos minutos finais, completou dois giros e parou novamente na pista. Resultado: nenhum tempo registrado, nenhuma volta limpa.
A assimetria foi gritante. Bottas: 52 voltas. Pérez: 16. Essa diferença vai pesar na classificação de sábado, onde o mexicano terá muito menos referências do carro e do traçado para trabalhar. Além dos problemas de performance, ambos os Cadillacs perderam pequenas peças dos espelhos por conta de vibrações durante o dia — um problema de ordem de magnitude menor do que a crise de vibrações que assola a Aston Martin neste fim de semana, mas que serve de lembrete de que carros novos, em regulamentos novos, têm vida própria.
O peso histórico da estreia da Cadillac
É fácil olhar para os tempos e ver só o 17º e o 19º lugar. Mais difícil é ter a perspectiva de quanto trabalho existe por trás desses resultados.
A Cadillac chegou à Fórmula 1 após anos de batalhas com a Liberty Media, aprovações da FIA, montagem de infraestrutura do zero e recrutamento de engenheiros num mercado de trabalho dos mais disputados do esporte. Que o carro chegou a Albert Park, passou pela pré-temporada e rodou em pista já é, em si, um sucesso que não pode ser medido em décimos de segundo.
Também há contexto regulatório: a temporada de 2026 estreou com as maiores mudanças técnicas em décadas, incluindo o fim do DRS e a chegada do sistema de aerodinâmica ativa. Todas as equipes estão descobrindo o carro ao mesmo tempo. Para a Cadillac, a curva de aprendizado tem ainda mais inclinação.
Para colocar em perspectiva: quando a Haas estreou em 2016, Romain Grosjean terminou em sexto no primeiro GP. Mas esse foi um caso extraordinário. O roteiro habitual de equipes novas na F1 é exatamente o que a Cadillac está vivendo — aprendizado intenso, problemas técnicos, e muito, muito trabalho noturno nas próximas horas.
De acordo com análise da The Race, Bottas foi considerado um dos destaques positivos do dia em comparação com o desempenho de novatos no mesmo cenário, o que diz algo sobre as expectativas do mercado para a equipe americana.
O que vem pela frente
O TL3 de sábado — às 22h30 BRT desta sexta à noite — é a última chance de Pérez colocar voltas no banco antes da classificação, marcada para as 2h da madrugada de sábado no Brasil.
A meta realista da Cadillac para o restante do fim de semana não é a Q2. É terminar o GP no domingo, acumular mileagem no AMR26 — perdão, no Cadillac — e sair de Melbourne com dados, aprendizado e os dois carros intactos.
O panorama mais amplo da corrida em Albert Park coloca Mercedes, McLaren e Ferrari como favoritas à vitória. A Cadillac joga outra partida, num campo diferente, com objetivos diferentes. Mas o simples fato de estar lá, botando rodas na pista onde Ayrton Senna correu, onde Schumacher dominou, onde Hamilton ganhou — isso, nenhum crono tira.
Toda história tem um primeiro capítulo. O da Cadillac na Fórmula 1 começou nesta sexta-feira em Melbourne.