Fim de SemanaReportagem

FP1 de 90 minutos em Miami: a FIA estendeu, e o sprint começa antes do sprint

A FIA aprovou um FP1 de 90 minutos em Miami, 30 a mais que o padrão. Em um sprint weekend que dá só uma sessão livre antes da SQ, esses minutos viram laboratório, briefing e teste de regulamento — tudo ao mesmo tempo.

PorAna Paula Costa
Publicado
Leitura7 min
FP1 de 90 minutos em Miami: a FIA estendeu, e o sprint começa antes do sprint
Ilustração — Miami International Autodrome na abertura do sprint weekend, com FP1 ampliado a 90 minutos antes da Sprint Qualifying

Quando o semáforo do pit-lane do Miami International Autodrome ficar verde nesta sexta às 13h locais (14h em Brasília), os carros da F1 vão entrar numa sessão diferente de tudo que aconteceu desde Suzuka. Não é exagero. O Treino Livre 1 do GP de Miami foi estendido para 90 minutos — meia hora a mais que o padrão de 60 — e dentro do calendário 2026, com regulamento novo e formato sprint, esses 30 minutos extras são quase um treino paralelo. A FIA confirmou a alteração depois de uma consulta com as equipes, e a justificativa é dupla: a longa pausa e o sprint que vem logo em seguida.

Ficha técnica da sexta de Miami

SessãoHorário local (Miami, EDT)Horário em BrasíliaDuração
Treino Livre 1 (FP1)12h00 – 13h3013h00 – 14h3090 min
Sprint Qualifying (SQ)16h30 – 17h3017h30 – 18h3060 min
  • Circuito: Miami International Autodrome — 5,412 km, 19 curvas
  • Formato do fim de semana: sprint (segundo dos seis sprint weekends de 2026)
  • Onde assistir no Brasil: Band, BandSports, F1 TV (com geo-bloqueio)
  • Pneus disponibilizados pela Pirelli: a escala mais macia do ano — C3, C4 e C5
  • Previsão: ensolarado, máxima de 29 °C; sem ameaça de chuva nesta sexta

Por que o FP1 ganhou 30 minutos a mais

A FIA não estende sessão por capricho. A regra padrão é clara: 60 minutos para cada um dos três treinos livres em fim de semana convencional, e exatos 60 minutos para o único treino livre em sprint weekend. A exceção miamense apareceu por três motivos somados.

O primeiro é a pausa. Com Bahrein e Arábia Saudita cancelados, o último carro de F1 a rodar em pista oficial foi o de Antonelli, vencendo Suzuka em 12 de abril. São quase três semanas sem corrida, ou cinco se contado o intervalo entre a viagem para o Japão e o transporte para a Flórida. Engenheiros perderam quilometragem real, dados de pneu degradado e horas de telemetria que normalmente ajudam a calibrar setup do próximo GP. O FP1 estendido é a recuperação parcial dessa janela perdida.

O segundo é o regulamento de 2026. O pacote técnico que entrou em vigor em Melbourne — chassi mais leve, motor 50/50 com a parte elétrica somando 350 kW, ativação aerodinâmica móvel substituindo o DRS — ainda está sendo digerido pelas equipes. Cada GP novo é um pedaço de quebra-cabeça. Com modificações regulatórias entrando em vigor depois da pausa (entre elas o ajuste de combustível e o reforço do limite de pressão dos pneus), as equipes precisam de chão para validar setup. Trinta minutos a mais resolvem parte disso.

O terceiro é o próprio sprint. Em vez dos três treinos livres do fim de semana convencional, o sprint dá uma única sessão antes da Sprint Qualifying. Em uma pista que tem zona de DRS curta, asfalto que acumula sujeira nos primeiros giros e curvas lentas em sequência (o setor 3, especialmente), uma hora era pouco até sob regulamento conhecido. Em 2026, com tudo novo, era pouquíssimo. A FIA cedeu.

Quem ganha mais com os 90 minutos

Os top times — Mercedes, Ferrari, McLaren, Red Bull — vão usar os primeiros 20 minutos para mapeamento de pneu, depois rodar runs longos em C3 (médio) para entender degradação, e fechar com simulação de quali em C5 (macio). Trabalho que costumam dividir entre FP1 e FP2 vai ser empilhado numa só sessão. A boa notícia é que sobram 30 minutos para refinar — testar duas variações de asa traseira, reavaliar mapa de bateria, comparar dados telemétricos lado a lado.

A Ferrari, que chega a Miami com pacote completo — piso novo, evolução da asa Macarena, refinamento de underbody —, é quem mais precisa desses 30 minutos. O risco de quem traz upgrade grande para fim de semana sprint é validar o componente sob pressão de relógio. Charles Leclerc, em entrevista no media day desta quinta, foi direto: "Precisamos sentir o carro antes da SQ. Não é só ver o tempo de volta — é entender se a curva longa do setor 3 pega o carro como deveria." Lewis Hamilton, em sua segunda visita a Miami pela Scuderia, soou mais cauteloso e disse que o foco da equipe é "encontrar uma janela operacional ampla" antes do sprint.

A McLaren, que perdeu velocidade na transição entre 2025 e 2026 e ainda não somou pódio para Lando Norris, está na situação inversa: não tem upgrade grande, tem que tirar leite de pedra do MCL40 para chegar perto dos Mercedes. Para Norris e Oscar Piastri, os 90 minutos viram laboratório de balance — testar variações finas de asa, suspensão e barra que normalmente levariam dois treinos.

Mid-grid também sai ganhando. A Racing Bulls, que sustenta um pacote novo na pista, e a Aston Martin, que precisa validar a correção da Honda contra as vibrações, recebem fôlego adicional. Para o rookie Arvid Lindblad, da Racing Bulls, os 30 minutos extras são quase ouro: piloto novo, primeiro sprint americano, regulamento novo. Cada volta vale mais.

A SQ é mais que classificação

Não é raro o brasileiro ligar a TV no fim da tarde de sexta esperando "só um treino mais sério" e desligar achando que viu uma quali normal. A Sprint Qualifying não é nada disso. Funciona em três segmentos curtos — SQ1 com 12 minutos, SQ2 com 10, SQ3 com 8 —, com eliminação a cada corte e tempo apertado para troca de pneus. Os pilotos não fazem mais que três tentativas por segmento. E o resultado da SQ não vai para o grid de domingo: define apenas a largada da Sprint de sábado, que vale 8 pontos para o vencedor (e mais 7-6-5-4-3-2-1 atrás).

Por que isso importa? Porque a SQ é o primeiro sinal real da hierarquia em Miami. As 24 voltas da Sprint não geram retoque grande de balance entre a sexta e o sábado — equipes têm parque fechado entre SQ e Sprint. O setup que o piloto colocar no carro às 16h30 da sexta vai correr a Sprint inteira no sábado. Errar a SQ em Miami é arrastar o erro até a corrida principal.

A pole da SQ tem outra função silenciosa: dado bruto. Toda equipe vai cruzar o tempo com a simulação de pré-temporada, ajustar o modelo de carro e jogar para o resto do fim de semana. Uma SQ ruim mascara uma corrida ruim por ainda mais 24 horas — quando o erro aparece no sábado à tarde, é tarde demais para reagir.

Palpite da redação

Mercedes chega como favorita por inércia: três vitórias em três corridas, Antonelli líder do Mundial, George Russell um pacote completo de pole-position-corrida-pódio nos GPs anteriores. Não há motivo para apostar contra na SQ. O carro alemão é o único do grid que casou aerodinâmica e motor desde a primeira corrida.

Mas a aposta é que a margem encolhe. Com FP1 estendido + pacote completo da Ferrari + macios C5 em pista quente, é razoável esperar que Leclerc e Hamilton fiquem dentro de 0,3 segundos da pole. McLaren é o ponto de interrogação: Norris precisa de algo, e Miami é o tipo de pista que recompensa ousadia em curva longa — o brasileiro vai notar que o setor 1, em particular, costuma ser o termômetro.

Para Mercedes, o desafio é o de quem chega na frente: defender. Para Ferrari, o de quem precisa converter. Para McLaren, o de quem precisa reaparecer. Os 90 minutos da sexta dão a chance de cada uma dessas três respostas começarem a aparecer antes mesmo de a SQ marcar tempo.

A primeira pista oficial, no fim, é o tempo de volta da última tentativa do SQ3. Quando o cronômetro parar às 17h30 (BRT) desta sexta, o sprint weekend de Miami já terá entregado seu primeiro veredito — e a F1 finalmente vai ter passado a página de Suzuka.