FIA confirma primeira revisão ADUO após o Canadá em 2026
A FIA fechou o cronograma: o primeiro corte do ADUO será aplicado depois do GP do Canadá, com Honda e Audi como candidatas naturais a destravar verba e dias de bancada extras. O pacote saiu de 8% para 10% e ganhou US$ 8 milhões no caminho.

A FIA fechou o último ponto em aberto do ADUO antes de o calendário 2026 entrar em sua fase europeia: a primeira revisão do esquema de assistência aos motores será aplicada após o GP do Canadá, em Montreal, no dia 24 de maio. O comunicado da entidade, publicado nesta semana, confirma o cronograma que já vinha sendo trabalhado nos bastidores da Comissão da F1 e desloca para o início da temporada o primeiro alívio efetivo a fabricantes em dificuldade — categoria em que Honda e Audi são as candidatas mais óbvias.
O que muda — e quanto vale o pacote
O ADUO (Additional Development and Upgrade Opportunities, na sigla original) foi criado para evitar que o ciclo regulamentar 2026 reproduzisse a era pós-2014, quando manufaturadores atrasados ficaram amarrados por homologação e perderam anos no fundo do grid. O texto original previa que um fabricante mais de 8% abaixo do motor de referência receberia horas extras de bancada, liberdade adicional de upgrades e uma fatia maior do orçamento técnico.
Na versão revisada que vale agora, a FIA mexeu em três frentes:
- Limiar: subiu de 8% para 10% de déficit de performance medido pelo ICE Performance Index.
- Envelope financeiro: mais US$ 8 milhões adicionados ao programa só para 2026.
- Duas faixas de elegibilidade: quem está acima de 10% atrás do benchmark ganha US$ 11 milhões extras de desenvolvimento; quem fica entre 8% e 10% recebe US$ 8 milhões.
O índice usado pela FIA é calculado corrida a corrida e isola o motor a combustão interna do resto do pacote — telemetria de potência, mapas de uso e dados de bancada são cruzados para evitar que carros ágeis aerodinamicamente "escondam" um motor que esteja no topo. É um sistema parecido com o que a categoria já tem para fechar o cap de custos, mas com janela menor e auditoria muito mais frequente.
Por que Canadá, e não Miami
A janela de avaliação original encerraria depois da sexta etapa, que no calendário desenhado em 2025 era o GP de Miami. Os cancelamentos sucessivos do Bahrein e da Arábia Saudita — empurrados pela instabilidade regional — comprimiram o início da temporada e fizeram Miami virar a quarta corrida. A FIA preferiu não aplicar o corte com base em apenas três Grandes Prêmios e empurrou o veredito para depois de Montreal.
| Período | Etapas | Janela de avaliação |
|---|---|---|
| Período 1 | Austrália → Canadá (1 a 5) | Primeira revisão após o GP do Canadá |
| Período 2 | Mônaco → Hungria (6 a 11) | Segunda revisão após o GP da Hungria |
| Período 3 | Holanda → México (12 a 18) | Terceira revisão após o GP do México |
A nova ordem dá mais corridas em cada período e reduz o risco de uma fabricante ser premiada por um pico de azar pontual. É também a primeira sinalização de que a FIA tratará o calendário 2026 como temporada cheia, mesmo sem as duas etapas do Oriente Médio — algo que vinha sendo questionado pelos chefes de equipe desde a divulgação do recorte de etapas. A análise técnica detalhada do que mudou em pista está mapeada no guia do regulamento 2026 do portal.
Honda e Audi: a fila do primeiro corte
Conversas no paddock indicam dois nomes na frente para a primeira revisão. A Honda, fornecedora da Aston Martin, é descrita como a mais distante do topo, com déficit estimado em mais de um segundo por volta vindo só do motor — combinação de ICE menos eficiente do que o esperado e ERS abaixo do alvo. A Audi, que retornou à F1 com o projeto Sauber, aparece em faixa parecida. As duas estreantes do ciclo 2026 devem destravar o pacote mais generoso (faixa acima de 10%).
A Ferrari fica em situação menos clara. Fred Vasseur fala em "fechar a diferença para a Mercedes" e estima o déficit em até 0,8 segundo no ritmo de corrida — o suficiente para qualificar a Scuderia para a faixa intermediária do ADUO, se o índice da FIA concordar. Em abril, a Ferrari já havia colocado o programa como um dos três vetores do pacote de Miami, ao lado do piso revisado e da nova asa Macarena.
A briga política: alcançar, sem ultrapassar
O consenso técnico esconde uma disputa sensível. Toto Wolff, da Mercedes, fixou a posição da líder do campeonato em entrevistas recentes: o ADUO existe para "alcançar" o pelotão, não para fazer leapfrog — termo que ele usou para descrever o cenário em que uma fabricante atrasada salta a ordem natural depois do reforço. A Mercedes é apontada pelos rivais como dona do melhor motor da grade, com quatro poles em quatro GPs e líder do construtores.
Laurent Mekies, da Red Bull, declarou apoiar o princípio defendido por Wolff, mas afirmou que a equipe não tem o melhor motor e deveria ser elegível. A Red Bull, com a unidade de potência própria em parceria com a Ford, está sétima no campeonato com Verstappen e teve em Miami sua melhor aproximação do topo no qualifying — o que enfraquece o argumento de estagnação, mas reforça a tese de que a base de potência ainda está atrás.
A FIA, no comunicado, já adiantou que o ADUO "não é uma bala de prata" e que o índice de performance é apenas uma das variáveis. A entidade quer evitar a impressão de que a redistribuição vai resolver problemas de chassi, pneus ou aerodinâmica — todos fora do escopo. O efeito real em pista só deve aparecer entre Hungria e Holanda; antes disso, o impacto fica no orçamento e na bancada. Para o leitor que quiser dimensionar o buraco em ritmo de motor que a Aston Martin precisa atacar, vale o diagnóstico recente do projeto Newey-Honda em Miami.
Próximos passos
O cronograma prevê que os documentos formais com os índices de cada motor sejam protocolados na semana do GP do Canadá. A primeira reunião da Comissão da F1 pós-Montreal trará a divisão dos pacotes; a partir daí, fabricantes elegíveis poderão iniciar upgrades de hardware acima dos limites originais, dentro do envelope adicional. A segunda revisão fecha depois de Budapeste — momento em que Honda, Audi e, eventualmente, Ferrari precisarão mostrar progresso mensurável para manter o benefício. Se a engenharia conseguir traduzir o pacote em décimos antes do verão europeu, o ADUO terá cumprido seu desenho. Se não, o argumento de Wolff de que o sistema basta para "alcançar, mas não ultrapassar" vai a teste já em agosto.
Perguntas frequentes
Quando começa a valer o ADUO em 2026?
A primeira revisão acontece logo após o GP do Canadá (24 de maio), que é a quinta etapa do calendário 2026. Os manufaturadores elegíveis recebem o benefício a partir daí, e novas avaliações virão depois da Hungria (etapa 11) e do México (etapa 18).
Quem é o favorito a receber o ADUO no primeiro corte?
Honda (fornecedora da Aston Martin) e Audi (motor do projeto Sauber) são as candidatas naturais — paddock e dados apontam déficit superior a 1 segundo por volta por causa do motor. A Ferrari também pode ser contemplada, segundo Fred Vasseur.
O que mudou no esquema ADUO em relação ao texto original?
A FIA elevou o limiar de elegibilidade de 8% para 10% de déficit de performance, acrescentou US$ 8 milhões extras no envelope e dividiu o pacote em duas faixas: +US$ 11 milhões para quem está acima de 10% atrás e +US$ 8 milhões para quem está entre 8% e 10%.
Por que o cronograma original do ADUO foi remarcado?
A primeira janela terminaria após a sexta corrida, que seria Miami. Com Bahrein e Arábia Saudita fora do calendário 2026, Miami virou apenas a quarta etapa, e a FIA empurrou o corte para depois do Canadá.
Quais reações o ADUO tem gerado entre os chefes de equipe?
Toto Wolff pediu que a ferramenta sirva para alcançar e não para ultrapassar a hierarquia atual. Laurent Mekies concorda com o princípio, mas defende a Red Bull como elegível. Fred Vasseur fala em até 0,8s de déficit da Ferrari para a Mercedes em potência.