Quinta em Dados: F1 tem 157% mais ultrapassagens em 2026 — Miami é o teste
Três corridas, 372 ultrapassagens — mais do que o dobro de 2025. Verstappen lidera com 51, dois Haas estão no top 3 e os Racing Bulls aparecem entre os dez maiores remontadores. Lucas Kim mostra por que Miami, que tem o sprint de menos passagens da história, é o exame final desse novo padrão.

A Fórmula 1 produziu 372 ultrapassagens nas três primeiras corridas de 2026. Em 2025, no mesmo recorte de calendário, foram 145. O salto é de 157% — não é variação estatística, é uma mudança de regime. E há um detalhe que resume tudo: o líder do ranking é Max Verstappen, com 51 manobras. O quatro vezes campeão do mundo está em nono no campeonato.
A nova geração de carros, o assoalho redesenhado e o sistema de DRS ativo (active aero) prometiam mais ação na pista. Os números mostram que entregaram. A pergunta que define o fim de semana de Miami é se o circuito de Hard Rock vai sustentar esse padrão — ou expor seu único limite estrutural.
O salto: 372 ultrapassagens em três corridas
A comparação direta entre os mesmos GPs em 2025 e 2026 não admite ressalva:
| GP | Ultrapassagens 2025 | Ultrapassagens 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Austrália | 45 | 120 | +167% |
| China | 72 | 146 | +103% |
| Japão | 28 | 106 | +279% |
| Total | 145 | 372 | +157% |
Os dados são compilados por Fanamp, que cruza telemetria oficial da F1 com a contagem manual da Fórmula 1 Fantasy (cada manobra de pista vale ponto e gera log auditável). O salto é generalizado: cada piloto está somando, em média, três pontos extras de ultrapassagem por corrida em relação a 2025.
Suzuka é o caso mais extremo. O GP do Japão, historicamente travado e com uma única zona de DRS efetiva (a reta principal), saltou de 28 para 106 manobras. Isso é mais ultrapassagens em uma única corrida do que somando Austrália, China e Bahrein de 2025.
A explicação técnica vem do regulamento. Os carros de 2026 perderam carga aerodinâmica em curva alta e ganharam um modo de baixa resistência (X-mode) que se ativa em retas longas. Na prática, o piloto que está atrás recupera mais rápido, e o piloto que está na frente perde menos tempo na esteira. O efeito combinado é exatamente o que o pacote regulatório prometia.
Quem ultrapassa mais: o ranking que conta a história de 2026
O top 10 de manobras da temporada já é, sozinho, uma narrativa do campeonato:
| # | Piloto | Equipe | Ultrapassagens |
|---|---|---|---|
| 1 | Max Verstappen | Red Bull | 51 |
| 2 | Esteban Ocon | Haas | 36 |
| 3 | Ollie Bearman | Haas | 31 |
| 4 | Lewis Hamilton | Ferrari | 30 |
| 5 | Charles Leclerc | Ferrari | 30 |
| 6 | Isack Hadjar | Red Bull | 27 |
| 7 | Arvid Lindblad | Racing Bulls | 26 |
| 8 | Nico Hülkenberg | Audi | 25 |
| 9 | Liam Lawson | Racing Bulls | 24 |
| 10 | Carlos Sainz | Williams | 24 |
A média do grid é de 23 ultrapassagens por piloto em três corridas — quase oito por GP. Há quatro anos, esse número de manobras seria considerado uma temporada inteira para metade do grid.
Verstappen aparece em primeiro porque está fazendo a pior largada de campeonato da carreira. Não conseguiu Q3 por ritmo em dois dos três fins de semana. Em Suzuka, largou em 20º após acidente no quali e terminou em sexto. O dado não exalta o piloto — denuncia o carro. É a leitura que casa com o diagnóstico técnico do RB22 publicado neste portal.
A Haas com dois pilotos no top 3 é o segundo título indireto do ranking. Ocon e Bearman somam 67 manobras juntos, e a equipe é a quarta no Construtores. Não é coincidência: o VF-26 é o carro do meio-campo com a melhor passagem em curva média e o motor Ferrari mais consistente em modo de potência baixa, conforme análise da telemetria de Xangai.
A Racing Bulls coloca os dois pilotos no top 10 — Lindblad em sétimo e Lawson em nono. Os 50 movimentos somados explicam por que a equipe está em sétimo no Construtores com 14 pontos, dois à frente da Red Bull. A oficina de Faenza está usando ritmo de corrida onde não tem pole.
Quem ultrapassa menos: o paradoxo da McLaren
O fundo do ranking é mais reveladora que o topo:
| # | Piloto | Equipe | Ultrapassagens |
|---|---|---|---|
| 20 | Lance Stroll | Aston Martin | 10 |
| 19 | Oscar Piastri | McLaren | 11 |
| 18 | Valtteri Bottas | Cadillac | 12 |
| 17 | Lando Norris | McLaren | 14 |
| 16 | Alex Albon | Williams | 14 |
Os dois pilotos da McLaren estão entre os cinco que menos ultrapassam. Em qualquer outro contexto seria um sinal de carro pouco competitivo. Em 2026 é o oposto: Norris e Piastri ultrapassam pouco porque largam à frente. A McLaren é sexta no Construtores em pontos, mas terceira em poles e tempo médio na frente. Os 25 movimentos somados de Norris e Piastri equivalem a metade do que Verstappen faz sozinho — porque Verstappen passa a corrida toda recuperando.
O caso de Stroll, em último, é diferente. A Aston Martin está zerada no Construtores. Stroll não tem ritmo de qualificação para entrar no Q2 e não tem ritmo de corrida para passar quem está na frente. Dez ultrapassagens em três corridas é o piso operacional do grid — e o portal já mapeou a crise do motor Honda como variável central.
Miami é o teste — e o histórico joga contra
O Hard Rock Stadium recebe o segundo sprint do ano de 1 a 3 de maio. O detalhe que define o fim de semana é este: o sprint de Miami de 2024 produziu apenas 6 ultrapassagens — recorde negativo absoluto da história do formato sprint. O número anterior era 9, no sprint de Monza 2021.
A linha histórica do GP de Miami é mais condizente com o resto do calendário, mas em queda:
- 2022: 52 ultrapassagens
- 2023: 62 ultrapassagens
- 2024: 41 ultrapassagens
- 2025: 38 ultrapassagens
A queda não é acidente. Miami tem três zonas de DRS, mas duas levam a chicanes lentas onde o carro de trás perde tração logo após passar. A janela real de ultrapassagem está concentrada na curva 1 (frenagem após a reta principal) e na curva 11 (após a reta longa do estádio). O resto é defesa estática.
Em 2026, o cálculo muda. A perda de carga em curva alta deveria favorecer Miami, que tem oito curvas de média-velocidade onde o carro de trás historicamente sofria com esteira. O X-mode em retas longas é tailor-made para a configuração da curva 11. Se a tese do regulamento for verdadeira, o sprint de sábado vai produzir o dobro do recorde negativo de 2024.
Se for falsa — se Miami expor o único circuito onde o pacote 2026 não funciona —, o efeito político será imediato. A FIA passou os últimos dois meses defendendo o regulamento contra Verstappen, Newey e parte do paddock. Um sprint travado em Miami devolve munição ao outro lado.
A leitura analítica
Três conclusões saem dos números:
Primeiro: o regulamento 2026 está produzindo o tipo de corrida que o regulamento de 2022 prometeu e não entregou. A diferença não é marginal — é estrutural.
Segundo: o ranking de ultrapassagens é um termômetro inverso de competitividade no grid. Quem mais ultrapassa, geralmente, está mais atrás do que merece estar. Verstappen no topo é o sintoma mais ruidoso do colapso da Red Bull.
Terceiro: Miami é o circuito que importa para a calibração desse novo padrão. Bahrein e Imola são pistas de overtaking fácil — qualquer regulamento gera ultrapassagem ali. Miami testa o piso. Se o número subir em relação a 2024, o pacote 2026 está consolidado. Se cair, o debate volta.
O sprint de sábado, com sua janela de oito voltas e zero margem de erro, é o experimento isolado mais útil do ano até aqui. A coluna desta semana volta na próxima quinta com os números colhidos da pista — e com a resposta.
Fontes: Fanamp — F1 Fantasy Overtake Trends 2026, Formula1.com — 2026 Race Results, Sky Sports F1, Racingpass — Miami GP overtakes data, RacingNews365 — Standings after Japanese GP.