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McLaren em Miami: 7 mudanças, novo assoalho e 2 décimos para a Mercedes

McLaren levou a Miami sete modificações aerodinâmicas — seis delas penduradas em um assoalho completamente novo — e teve o melhor fim de semana de 2026: pole no sprint, vitória de Norris, duplo pódio no GP. E mesmo assim Andrea Stella admite: a Mercedes ainda tem 2 décimos. Canadá traz o resto.

PorAna Paula Costa
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McLaren em Miami: 7 mudanças, novo assoalho e 2 décimos para a Mercedes
Foto: McLaren Racing / Reprodução — MCL40 atualizado com novo assoalho e seis modificações aerodinâmicas no GP de Miami 2026

A McLaren chegou a Miami com a promessa de um "MCL40 completamente novo". Saiu com pole no sprint, vitória de Lando Norris no sábado e duplo pódio no domingo. Em pontos, 48 — o melhor fim de semana do ano. Em ritmo bruto contra a Mercedes, ainda dois décimos atrás. Esse é o saldo técnico mais interessante do GP de Miami: o pacote funcionou exatamente como o departamento de aerodinâmica em Woking previu, sem surpresa para cima nem para baixo. E ele ainda nem chegou inteiro ao carro.

Sprint, GP e o melhor fim de semana de 2026 da McLaren

Os números do fim de semana sustentam a leitura de que o passo foi real, não cosmético. Norris fez 1:27.869 na pole do sprint, batendo Kimi Antonelli por dois décimos cravados — a primeira vez na temporada que a Mercedes perdeu uma sessão de qualificação. No sprint, vitória limpa de Norris com Antonelli em P2 (depois punido). No GP, Antonelli largou da pole e venceu com 3,264s de margem para Norris em 57 voltas. Piastri completou o pódio a 27s, encerrando uma seca de duplo pódio que durava desde dezembro do ano passado.

SessãoResultado McLarenGap para Mercedes
Sprint QualifyingP1 (Norris 1:27.869)-0,200s para Antonelli
Sprint Race (19 voltas)P1 Norris, P3 PiastriAntonelli punido para P5
GP QualifyingP2 Norris, P4 Piastri-0,150s para Antonelli na pole
GP (57 voltas)P2 Norris, P3 Piastri+3,264s para Antonelli no fim

O ponto importante não é a soma — é o formato da curva. A McLaren foi melhor que a Mercedes em volta única no sprint, ficou em ritmo com ela no GP nas primeiras 25 voltas e perdeu o duelo na janela de pit stop, quando uma parada um décimo mais lenta deu o undercut à Mercedes. Esse é o tipo de derrota que se resolve em fábrica.

O assoalho que sustenta seis das sete mudanças

A leitura mais relevante do dossiê aerodinâmico publicado pela equipe é o ponto único de gravidade: das sete modificações listadas oficialmente, seis estão presas a um assoalho completamente novo. A asa dianteira é a única peça do pacote que existiria sozinha em qualquer outro fim de semana. Tudo o que está atrás dela só faz sentido porque o piso mudou.

A reconfiguração começa no leading edge — a borda dianteira que fica logo atrás da roda — e segue até as bordas laterais que controlam o ar sob o carro. A entrada dos sidepods foi redesenhada, e o undercut traseiro acompanhou: você não pode mudar a forma como o ar entra sem mudar a forma como ele sai. A cobertura de motor foi remodelada para canalizar o fluxo até a asa traseira, e os endplates dessa asa ganharam strakes — pequenas guias verticais — que tiram melhor proveito do que chega da nova geometria do difusor.

Esse encadeamento explica por que o time não trouxe o pacote dividido em duas etapas. Quando seis peças dependem de um sétimo componente — o piso — tentar pilotá-las antes dele significa pilotar um carro que não foi simulado. Foi por isso que a McLaren passou 174 voltas em Nürburgring no fim de abril testando pneus e concept antes de homologar o lote para Miami.

A asa dianteira, a peça "autônoma" do pacote, traz dois ganhos: mais downforce em modo straight (a configuração de baixa pressão que abre o DRS) e melhor controle de balanço em curva, via outwash mais eficiente direcionando o ar pelos sidepods. É o resultado que apareceu na pole de sábado, onde a vantagem de Norris foi inteira no terceiro setor.

Por que ainda faltam dois décimos para a Mercedes

A frase que mais importa para o resto da temporada não saiu da boca de um piloto. Saiu de Andrea Stella, no domingo à noite, depois de ouvir Lewis Hamilton dizer que a McLaren parecia ter chegado lá. Stella negou, como fez sentido para Carla Ribeiro em sua coluna de segunda, e ofereceu o número: dois décimos de vantagem da Mercedes em ritmo puro.

A matemática do sprint comprova: Norris foi pole por 0,200s e Antonelli respondeu controlando o gap por 19 voltas. Não foi a McLaren ganhando o sprint; foi o Antonelli engolido pelo graining de pneu médio que ele e o estrategista decidiram montar para sábado. No GP, o pneu foi outro, o gap voltou. A Mercedes ainda gerencia melhor a vida do composto duro do que qualquer outra equipe da grade — um déficit que vem desde Bahrein.

Onde, então, a McLaren ganhou os décimos que tinha em Miami? Em três áreas mensuráveis:

  • Tyre management em corrida — área onde o time admitiu publicamente que sofreu nas três primeiras provas. O assoalho novo reduz a sensibilidade a degradação porque baixa o pico de carga no eixo traseiro, distribuindo a downforce numa janela mais ampla.
  • Eficiência em retas — a asa dianteira somada à nova cobertura de motor entrega mais downforce com o mesmo arrasto. Em Miami isso valeu cerca de 4 km/h a mais na velocidade final.
  • Balanço sob freada forte — a curva 17, onde Norris se aproximou de Antonelli no domingo, é um teste clássico de transição traseira. O carro velho saía de traseira; o novo aguentou.

A conta total fica perto de meio segundo em ritmo bruto. Tirou três décimos do gap de meio metro pra Mercedes. Sobraram dois.

O que vem em Montreal — e por que o gap pode fechar

Stella confirmou que o que entrou em Miami representa cerca de 60% do pacote que a McLaren chama de "MCL40 novo". Os 40% restantes vão para o GP do Canadá, entre 22 e 24 de maio. A direção do desenvolvimento ainda é a mesma — refinamento de assoalho, ajustes laterais, mais um passo na asa dianteira — porque o time não tem motivo para abrir uma segunda frente quando a primeira não foi completamente explorada.

Esse desenho de upgrade em duas levas é o que diferencia a McLaren das outras três grandes. A Ferrari trouxe 11 peças de uma vez em Miami — uma rajada que não fechou o gap conforme Lucas Kim mostrou no balanço da SF-26. A Red Bull também fez tudo de uma vez e ficou em P5. A Mercedes não trouxe upgrade nenhum — o pacote dela está marcado para Canadá. Ou seja: em Montreal, a McLaren completa o passo, mas a rival principal também dá o dela.

A janela tática para Norris e Piastri, então, não é Canadá. É o intervalo. Se o time conseguir extrair em fábrica o aprendizado dos dados de Miami antes da próxima corrida, pode chegar a Montreal com o pacote inteiro e meio segundo a menos para a Mercedes. Se chegar igual ao que estava em Miami, vai brigar pelas migalhas de novo.

O recado interno do paddock é claro. A McLaren foi a equipe que mais marcou em Miami. Continua a 80 pontos da Mercedes no Construtores. O carro funciona. Falta vencer.

Para o leitor que está acompanhando a recuperação da equipe semana a semana, a coluna da Carla sobre a casa de Miami da McLaren faz par com este artigo: lá estava a aposta, aqui o resultado mensurado.

Perguntas frequentes

Quantas mudanças a McLaren trouxe para o MCL40 em Miami?

Sete modificações aerodinâmicas — assoalho, entradas dos sidepods, undercut, bordas do floor, asa dianteira, cobertura de motor e endplates da asa traseira. Seis das sete estão diretamente ligadas a um assoalho completamente novo.

Qual é a vantagem que a Mercedes ainda tem sobre a McLaren?

Cerca de dois décimos por volta em ritmo de corrida, segundo o próprio Andrea Stella. Em Miami o gap final foi de 3,264s para Antonelli em 57 voltas — uma média de 57 milésimos por volta — mas em pace bruto a Mercedes continua à frente.

O pacote do MCL40 está completo após Miami?

Não. Stella confirmou que o que foi entregue em Miami representa cerca de 60% do upgrade que define o 'MCL40 completamente novo'. Os 40% restantes chegam no GP do Canadá, entre 22 e 24 de maio.

Quantos pontos a McLaren marcou no fim de semana de Miami?

48 pontos somando sprint e corrida principal: vitória de Norris no sprint, P2 e P3 no GP. Foi o melhor saldo de fim de semana da equipe em 2026 e o primeiro duplo pódio do ano.

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Sobre o autor

Ana Paula Costa

Analista Técnica

Engenheira aerodinâmica. Ex-Williams F1 Team. Desmonta os carros em análises detalhadas.