F1 2026: Alonso acertou o diagnóstico, errou o atestado
Fernando Alonso chamou os carros de 2026 de os piores da história e disse que híbrido não deveria estar correndo. Carla Ribeiro topa metade do argumento — a ultrapassagem virou botão, e isso é real. O problema é o resto: essa é a mesma oração fúnebre que todo veterano faz a cada troca de regra. E quem calou o espanhol foi o próprio pupilo, de 19 anos.

Vou começar pelo fim, porque é mais honesto: Fernando Alonso está certo. A ultrapassagem na F1 2026 virou, sim, uma disputa de saldo bancário de bateria, e não de coragem na freada. Quando o espanhol diz que passar um carro hoje não exige talento nenhum, só o botão certo na reta certa, ele está descrevendo o que qualquer um viu na tela em Silverstone. O incômodo é real e o diagnóstico é preciso. O problema é o parágrafo seguinte, aquele em que ele assina o atestado de óbito da categoria e decreta que "carro híbrido não deveria estar correndo". Aí, Fernando, você deixou de ser engenheiro e virou o velho da esquina reclamando que música boa acabou nos anos 90.
O diagnóstico sobre a F1 2026 está correto — e é desconfortável
Não vou fingir que Alonso está delirando, porque não está. Depois do GP da Inglaterra ele foi cirúrgico: disse que os replays da sprint mostravam gente ultrapassando no meio da reta só porque tinha mais energia acumulada, sem freada tardia, sem linha de fora, sem risco. É a definição de uma corrida decidida na planilha, não no volante. E ele foi além, cravando que os carros de 2026, sem as zonas de acionamento de energia, teriam menos potência de motor a combustão do que um F2. Comparou a lendária sequência de Maggotts-Becketts a "um posto de recarga". A imagem é cruel porque é boa.
Isso é um problema técnico legítimo, do tipo que o sistema de pontos e o pacote de regras de 2026 não resolvem sozinhos. Quando a bateria enche, o carro para de regenerar e o piloto perde freio-motor; quando esvazia, vira lesma. O gerenciamento de energia deixou de ser tempero e virou o prato principal. Se a F1 quer ultrapassagem de verdade — a da bravura, a do "será que passa aqui?" —, ela precisa admitir que 2026 entregou outra coisa. Nisso, o veterano está do lado da razão, e quem torce o nariz só porque é o Alonso reclamando está sendo tão preguiçoso quanto o botão que ele critica.
Mas "o pior de todos os tempos" é a fala de sempre
Agora a parte que me irrita. "Os piores carros que já dirigi." "Híbrido não deveria estar correndo." "A F1 perdeu quase uma década de corrida de verdade." Fernando, eu já ouvi esse discurso. Todo mundo já ouviu. É a mesma oração fúnebre que a geração anterior fez quando os V10 gritalhões viraram V8, que fez de novo quando o V8 virou o híbrido turbo de 2014, e que fará outra vez em 2030 quando estas regras que ele odeia forem substituídas por outra coisa que os novos veteranos vão jurar que é pior ainda.
Existe um padrão, e ele não é sobre engenharia — é sobre idade e sobre poder. O piloto que dominou um formato sempre acha que o formato seguinte é uma degradação, porque o formato seguinte redistribui as cartas e ameaça a vantagem que ele levou uma carreira para construir. Alonso tem 44 anos e uma habilidade sobrenatural de extrair de um carro tudo que ele tem. É natural que ele deteste um regulamento que, nas próprias palavras dele, deixa "poucas diferenças" para o piloto explorar. Só que "ruim para o Alonso" e "ruim para o esporte" não são a mesma frase, por mais que ele as pronuncie no mesmo fôlego.
O pupilo de 19 anos venceu o debate
E aqui está o detalhe que fecha o caso, com um sabor que eu confesso que apreciei. Quem contrariou Alonso de forma mais direta não foi um rival, não foi a FIA, não foi um jornalista. Foi Gabriel Bortoleto — o garoto brasileiro agenciado pela A14, a empresa do próprio Alonso. O pupilo olhou para o mentor e, com todo o respeito de quem chama o espanhol de "o piloto mais inteligente do grid", disse o oposto: "não acho que perdemos a magia do esporte". Os carros são diferentes, não piores. E completou com a frase que devia estar pregada na parede de cada box: por que reclamar por três anos de uma regra que vai até 2030? Ou o grid se acostuma, ou vai passar meia geração de luto.
Não é ingenuidade de novato. É o mesmo Bortoleto que, num P8 em Silverstone, triplicou a pontuação da equipe numa tarde e que sabe, na prática, que corrida é sobre extrair o máximo do que existe — não sobre chorar pelo que existia. O contraste é delicioso: o mestre, dono de dois títulos e de uma carreira inteira, prega o fim do mundo; o aluno, com meia temporada de F1 nas costas, manda todo mundo trabalhar. Se você quer saber quem entendeu melhor o momento da categoria, não é uma questão de idade — é uma questão de para onde cada um está olhando. Um olha para trás, para a década que ele acha que a F1 perdeu. O outro olha para a frente, para o próximo desafio em Spa.
O que fazer com o velho genial
Então fica o veredito, e ele é dividido de propósito, porque a verdade aqui também é. Ouçam o diagnóstico de Alonso: a F1 tem, sim, um problema de ultrapassagem virando videogame, e ignorar isso porque veio de um reclamão de plantão seria burrice. Mas rasguem o atestado de óbito. "O pior de todos os tempos" é o que se diz de toda regra nova nos primeiros meses, antes de as equipes destravarem os carros e de as corridas encontrarem seu ritmo. A F1 de 2014 também foi enterrada e virou uma das eras mais competitivas da história.
Alonso é bom demais para ser levado a sério como termômetro de futuro — ele é o passado tentando segurar o volante. E quando o próprio pupilo de 19 anos precisa te lembrar que reclamar por três anos é desperdício de tempo, talvez o problema não seja o carro. Talvez seja quem se recusa a dirigir o que veio depois dele.
Fontes: Motorsport.com, The Race.
Perguntas frequentes
O que Fernando Alonso falou sobre as regras da F1 2026?
Alonso classificou os carros de 2026 como os piores que já dirigiu e disse que carros híbridos não deveriam estar correndo. Segundo ele, não há talento envolvido na ultrapassagem: basta ter mais bateria e apertar um botão para passar na reta.
Por que Alonso critica o gerenciamento de bateria em 2026?
Porque a ultrapassagem passou a depender do saldo de energia, não da coragem na freada. Ele diz que gastar toda a bateria nas retas de Spa deixaria o carro sem reserva no resto da volta, e comparou a sequência Maggotts-Becketts de Silverstone a um posto de recarga.
Bortoleto concorda com Alonso sobre a F1 2026?
Não. Gabriel Bortoleto, agenciado pela A14 do próprio Alonso, discordou publicamente: disse que a F1 não perdeu a magia, que os carros continuam divertidos e que o grid deveria parar de reclamar por três anos, já que as regras vão até 2030.
Até quando valem as regras técnicas de 2026 na Fórmula 1?
O pacote de motor e chassi introduzido em 2026 está previsto para durar até 2030. É por isso que parte do paddock defende que reclamar do formato por três temporadas seria desgastante e inútil.